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Era um amor sem mistério, sem pecado, um amor de funcionários públicos.
Naquela época, o máximo que ocorria aqui no Plano era a polícia vir com lanterna e nos dar um sermão sobre ir para um local adequado blablabla perigoso blablabla viram casal da UDF sequestrado e assassinado? Vimos. Ainda assim, continuávamos, em grupo ou em dupla, soltos por aí, fazendo o que queríamos. Quem nunca deu um tapa numa roda com violão? Risos. Quem nunca transou por aí? Agíamos como coelhos e irresponsáveis. Dirigir sob efeito de álcool e outras coisas era praxe. Não tinha app nem bafômetro. E, raramente, um de nós morria. Sortudos? Risos. Anjos da guarda porretas, os nossos.
No pontão, que naquela época era em minúscula sem frescura, certa vez éramos um grupo, um violão, cigarrinhos, garrafões. Sanguê de boá ao som de Legião. Juventude que não tinha muitos tabus e proibições. Sem vida virtual. Socializando de perto. Uma fogueira no centro da roda. Noite fria da seca. Me afastei do grupo com o erro da vez. Fomos para o carro dele. Pegação intensa, ele coloca as mãos nos meus peitos, põe o pau para fora, dá aquela forçadinha direcionando minha cabeça, minha boca termina naquilo. E, de repente, fomos interrompidos por uma luz e toc toc toc no vidro embaçado do carro.
Que vergonha! Eu queria me esconder de vergonha! Pega com a boca na botija e levando sermão sobre os perigos de estar ali naquele lugar escuro fazendo o que estávamos fazendo. O policial estava certo, claro. Mas éramos jovens. E, em vez de irmos para casa, fomos continuar a roda no parque da treze. Eu e o erro não terminamos o que havia sido interrompido. Voltei para casa caminhando com um outro erro. Ele morava na quadra vizinha e foi me deixar na portaria. Eu, volúvel e deslumbrada com a atenção, já estava derretendo por ele. Risos. Um outro erro, que falava coisas sobre o Planalto Central também magia e meditação.
Esse erro me apresentou à Chapada algumas semanas depois dessa noite em que voltamos para casa a pé. São Jorge ainda era uma vila e não chegava asfalto até lá. Quase na entrada de Alto, tinha um Daime (claro que fui? risinhos). Eu vivia num esquema universidade, bar, academia, televisão. E, mesmo com tudo diferente, a vontade crescia como tinha de ser. Ele me ensinou a montar a barraca, sem trocadilhos. Risos. Acampamento mesmo. Transamos na barraca. E, também, fora do carro, ao luar. Costumava ficar tudo prateado em noite de lua cheia por lá… Ainda fica?
Enfim. Passei algumas semanas errando. Deve ter sido efeito rebote do chá. Dai-me ou não dai-me? Dei tudo. Sem dor. Sem drama. Sem proteção. Por que então a surpresa quando fiquei cheia de bolinhas vermelhas inchadas? Eu estava sendo exclusiva sem receber exclusividade. Um clássico da vida de toda menina idiota que se acha especial. Mais uma vez em que fui trouxa nessa vida. Sem risos. Pelo menos tinha tratamento e, em pouco tempo, eu estava de volta na pixxxta para negócio - só que dessa vez com raiva. Com muita raiva! Jurei que nunca mais me envolveria com nenhum portador de pênis.
No máximo, uma coisa burocrática que não ocupasse muito do meu tempo nem da minha energia. Se envolver? Não. Pagar contas de maneira pouco convencional? Por que não? Risos. Nunca tive dificuldades para entrar em festas, boates, shows. Entrava de graça muitas e muitas vezes. Nunca precisei pagar minhas bebidas ou minhas drogas. Eu não era inocente, sabia o porquê. Sabia o que eles queriam. Eu não tinha carro, então frequentemente pedia carona para sair. O jeito de pagar pela carona? Abrir as pernas, pedir para o cara colocar camisinha, deixá-lo gozar rápido e pronto. Eu não gastava dinheiro com táxi e chegava em casa em segurança.
Será que era tão ruim assim? Fodiam minha buceta durante no máximo alguns minutinhos, se metessem no cu não durava nem três… e fim. No geral, era sempre uma coisa morna e sem sobressaltos, rápida. E fim. Eu era uma personagem sem me dar conta do significado disso: a puta barata. Eu só soube mais velha. Me importei?
Esconder a verdade é proteger da solidão?