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Some Cupid kills with arrows, some with traps.
Eu já fui ingênua, já acreditei. Já namorei à distância e nem era tão distante assim, então a gente se via quase toda semana. Eu tinha certeza que ele me amava. Um homem diferenciado. Quando eu ia à Sampa, ficava na casa dele e a gente ia sempre almoçar com a família dele aos domingos antes de eu voltar pro Rio. O impensável encontro de um paulista e uma carioca durou aproximadamente um ano e meio. Eu confiava nele ao ponto de abrir mão do preservativo e deixá-lo me fotografar nua. No meu último fim de semana comprometida em Sampa, deixei que filmasse nosso primeiro anal. Claro que no pornô amador aparecia meu rosto, mas não o dele.
Felizmente, naquela época a fotografia e a filmadora eram analógicas e a gente não postava tudo, o tempo inteiro. A gente só vivia, sem precisar registrar tudo e mostrar pros outros. E, sem smartphone e internet, nossos soft porns caseiros corriam menos risco de cair no grupo de amigos no zap ou virar revenge porn. Ainda bem, fortuitamente amém! Imagina se tivesse smartphone com câmera naquela época. Risos.
Sim, eu já fui essa menina burrinha. Oops, inocente. Menina inocente, que acreditava no amor e na fidelidade dos homens. Já fui essa trouxa que acredita em homem, confia nas pessoas. E, enquanto eu acreditava e fazia planos, ele estava quase morando com uma menina. Os fins de semana que ela ia pro interior de minas visitar os pais eram os fins de semana que eu ficava com ele no apartamento (que era quase deles!) em Sampa. No entreato, ele me visitava no Rio em viagens de negócios.
Tenho asco. Da família dele também. Me recebiam como se eu fosse a norinha, membra da família. Ah, os almoços de domingo! Eu me sentia tão querida! A mãe dele cozinhava as coisas que eu gostava - até a sobremesa! Cozinhava! Será que ela também cozinhava pra namorada mineira daquele estrume que ela pariu? Fico muito revoltada com isso até hoje. Dá pra pensar de outra forma que não seja colérica? Eu era a pessoa no centro do picadeiro e não sabia.
Eu me sentia tão especial! Ele me buscava no aeroporto na sexta e me levava ao aeroporto no domingo. Me tratava com cuidado e educação. Me levava pra comer as coisas que eu gostava e assistia às séries que eu queria. Me apresentava a família e amigos, me presenteava e galanteava sempre que possível. Se demorava lá embaixo, num oral deliciosamente bem feito. Um príncipe! Só que era tudo uma ilusão. Eu era a namorada ocasional do Rio. Vivia uma monogamia unilateral com desconhecimento de causa. Uma iludida, coitada.
Nunca fiquei me lamentando, me vitimizando. Chega a ser engraçado o tanto que as pessoas acham que a sua vida é fácil, só pelo fato de você não expor as suas dificuldades nem viver reclamando. Eu desci ao inferno emocional quando descobri a unilateralidade do nosso relacionamento. O amor da minha vida era o amor da minha vida. Enquanto eu não era mais do que uma foda fixa ocasional. Doeu. Sobretudo naquele ponto da vida, doeu de uma forma que eu achava que não conseguiria parar de sentir. Doeu ao ponto de eu precisar que parasse. Numa noite fria tomei meia garrafa de vodka enquanto engolia duas caixas de rivotril. Acordei dois dias depois, no hospital. Tive sorte, estava na casa da minha mãe e meu cachorro a acordou e a levou até mim.
Doeu ao ponto de eu precisar que parasse de qualquer jeito, de não aguentar mais sentir. Já era um processo depressivo avançado e eu não sabia. Antes de ir parar no hospital, passei algumas semanas anestesiando a dor saindo, bebendo, rindo na companhia de gente que em nada me acrescentava, transando com gente que nem sei o nome. Hoje entendo que, inconscientemente, tentei me matar de diversas formas antes daquela noite fria.
O amor da minha vida morreu de uma forma tão metafórica , tão simbólica, tão apoteótica e espetacular… que foi como se eu fosse nocauteada. A minha sensação era de falta de ar. Doía fisicamente. Minha garganta apertava. Meu peito parecia que ia explodir. Quando eu treinava, certa vez levei um chute muito bem dado na boca do estômago - a sensação era a mesma, de sentir o peito sendo esmagado contra as costas e o ar não chegando. O amor da minha vida morreu de uma forma que, naquelas circunstâncias e contexto, me feriu de uma… não sei nem descrever. Não faz sentido pra mim, hoje. Todavia, sei que é real, afinal eu vivi, senti, morri.
Coloquei Legalmente Loira no Telecine e comecei a engolir os comprimidinhos. Eventualmente, parei de sentir. Não, porém, naquela noite fria.
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