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Perhaps when we find ourselves wanting everything,
it is because we are dangerously close to wanting nothing.
A primeira vez que tentei terminar o namoro não deu certo. Eu sentia que algo estava errado, sentia que algo me deixava desconfiada, desconfortável. Não queria. Tanta, mas tanta, mas tanta coisa nele me desagradava! Tentei terminar. No dia seguinte, recebi flores. Te amo. Nunca conheci alguém como você. Vamos ficar bem? Prometo me esforçar para ser o melhor para você. Foi assim que voltamos pela primeira vez.
Eu estava sensível quando nos conhecemos. Havia acabado de terminar um relacionamento com o cara que eu acreditava ser o amor da minha vida. Eu o amava. Amava tudo sobre ele. Terminamos porque estávamos morando em cidades diferentes e ficou muito difícil, depois do primeiro ano, administrar um relacionamento à distância e os custos financeiros e emocionais que vinham com ela. Término de comum acordo. E eu, destruída, desolada.
Estava com a autoestima no chão e a sensibilidade à flor da pele quando o conheci. Fisicamente, ele era até normal. Nem feio nem bonito. Arrumado. Educado. Cortês. Estava extremamente carente quando ele se aproximou. Triste. Em processo depressivo. Dei uma chance para aquele moço que parecia interessado, me tratando como se eu fosse a última bolacha do pacote. Ou seria biscoito?
Sei lá. Eu precisava me distrair. Sair daquele estado lastimável de luto. Perder quem a gente ama é um luto, não é? Na minha cabecinha de menina jovem, eu havia perdido o amor da minha vida para aqueles mais de mil quilômetros de distância que separavam o Rio de Porto Alegre. Estava em luto e precisava de uma distração. A vida, ironicamente, jogou um moço educado que parecia inofensivo e que me tratava como princesa no meu caminho.
Por que não? O conheci naquela festa estranha com gente esquisita. Vinho vai, tequila vem… Voltei de carona com ele, em vez de voltar com a amiga que havia insistido para que eu fosse à festa. Naquela primeira noite, ele me comeu sem camisinha sem que eu soubesse. Eu estava bêbada demais para saber e oferecer resistência. Dei. Ele me deixou em casa depois e, no dia seguinte, me ligou querendo saber como eu estava.
Bom dia, linda! Que saudade de você e do seu cheiro! Vamos comer uma pizza hoje? E assim, despretensiosamente, começou aquele relacionamento que duraria alguns anos e me faria prisioneira. Teve pizza e vinho. Teve ele me tratando como uma princesa, não como a puta que deu para ele sem camisinha na primeira vez. Eu, inocente, me senti lisonjeada por alguém estar me tratando bem e me levando para sair. Mal sabia…
As semanas foram passando e fui me sentindo desconfortável. Não sabia dizer o que estava errado. Não conseguia amá-lo (ao menos, não como eu amava o amor da minha vida que a distância levou). Da primeira vez que tentei terminar, recebi flores. Na última, caí da escada. Há aquelas outras vezes obscuras, no meio do caminho. Teve até aquela vez que ele me traiu, eu descobri e, ainda assim, voltei. Era ridículo. Inexplicável. Parecia feitiço! Maldição!
O cara me acusou de ser puta, me filmou pagando um boquete, enviou para os amigos… pensei em terminar, mas acabei ficando. A culpa era minha. Eu provoquei. Eu saí com amigos homens para o bar - ele tinha razão de se sentir inseguro. Para quantos você deu na primeira vez, hein puta? Quantos comeram essa buceta sem camisinha? Nossa primeira noite pesava, e eu acreditava que ele tinha razão de se sentir inseguro.
No fim das contas, sempre o desculpava e me culpava. Uma varinha mágica e plim!: de repente, eu estava ali novamente, penetrando ou sendo penetrada. Fazia até coisas das quais eu tinha nojo, como inversão. Sentia zero prazer naquilo, como sentia zero prazer em tantas outras coisas. Tinha vergonha de apresentá-lo a outras pessoas. O cara não tinha nenhuma... (noção? tato com pessoas mais humildes? não sei nomear o que lhe faltava que me fazia ter vergonha).
Lembra quando fui sincera e tentei conversar com ele sobre essas coisas? A minha falta de tesão virou agressão. Ele me jogou na cama, arrancou minha calça e ali, pela primeira vez, meteu no meu cu. A seco. Rasgou. Mas a culpa era minha. Provoquei, pensava. Hoje, não faz sentido. Naqueles tempos sombrios, eu não tinha o entendimento de que estava sendo manipulada. Sentia que algo estava errado e cedia. Acreditava ter o poder de mudar a situação, contornar as coisas.
Eu não imaginava estar em um relacionamento abusivo. Foi preciso muito tempo para entender o que eu havia passado. Eu sempre soube que havia algo errado, mas não sabia identificar o quê exatamente. Por que eu voltava? Por que me culpava? Por que começava a questionar minha própria visão de tudo? Não suportava nem a voz daquele cidadão! O sexo era entediante, não me dava tesão, me fazia bocejar. Às vezes, me dava medo. E, ainda assim, eu voltava.
Voltava e, dias depois, estava infeliz, murcha, desanimada, questionando até quem eu era e o que eu estava fazendo ali.
Aquilo que eu não sabia o que era, mas que eu sabia que estava errado, tinha nome. Gaslighting. Um abuso que nos atinge de forma sutil, mas muito grave. Trata-se de manipular a mulher psicologicamente para ter controle sobre ela, ao ponto de anulá-la, gerar inseguranças, dúvidas e medos. Nele, se distorcem, omitem ou criam informações, fazendo com que a mulher duvide de si mesma, de seus sentimentos, da sua capacidade e às vezes até da sua sanidade.
Quem nunca foi acusada de ser louca ou de estar imaginando coisas, para ter seus argumentos minimizados em uma discussão (quando tudo o que estava acontecendo era real)? O gaslighting é comum e pode aparecer não só nas relações amorosas, mas também no trabalho, na família e até nas amizades! Tão ou mais prejudicial quanto a violência física. Por acontecer mais sutilmente, é mais difícil que a gente perceba que é vítima até que já se encontre completamente anulada, sem autoestima e insegura.
Se logo de cara a gente leva um tapa, fica claro que continuar saindo com aquele homem não é coisa boa, mas o gaslighting… ah, ele acontece devagar. Eu não era submissa; eu estava sendo vítima de um agressor que me colocou em uma situação onde eu nem sabia que estava sendo vítima. Ninguém enxergava o que estava acontecendo, nem eu.
Talvez eu estivesse mesmo louca. Certamente, era loucura continuar, voltar, ceder. Fui traída na nossa cama, mas fiquei, questionei minha sanidade, me culpei. Ele era mestre na arte de manipular situações para fazer uma mulher pensar que está ficando louca. Bem comum em relacionamentos abusivos. Corriqueiro, não? Perdi as contas de quantas vezes me chamaram de louca ou chamei outra mulher de louca. E o clichê da maluca está nas novelas, filmes, séries, livros. Antigamente, mulheres que não se encaixavam no ideal romântico eram diagnosticadas com histeria. Histeros, do grego, útero. Risos nervosos.
Precisei de alguns terapeutas, de crenças variadas e da ciência. Muita leitura. Bastante meditação. Precisei de alguns anos e, mesmo assim, não me libertei daquela florzinha murcha em que me transformei durante nosso relacionamento. Lembra? Ainda é um pouco complicado, mesmo daqui. Precisei cair e me reerguer para me sentir feliz comigo mesma. Ainda é difícil aceitar que estive em uma situação dessas. Só agora estou começando a conseguir falar sobre isso. Precisei cair, me redescobrir e me reencontrar. Aceitar quem sou e resgatar minha liberdade. Autonomia talvez seja uma palavra mais adequada?
Entender tudo que havia acontecido foi um passo. Me aceitar está sendo outro. Às vezes, acho que sinto vergonha de admitir que conheço, de perto, determinadas situações. Algumas coisas são bastante complicadas de admitir para si mesma. Meu diploma de psicologia não me impediu nem me protegeu de me envolver com um narcisista manipulador. Identificar não nos torna imunes. Não mesmo.
E falar...falar não cura, não resolve nada. Porém, falar pode ajudar outras vítimas a acordarem, perceberem. Também pode angariar ódio, maledicências. Eu sou a louca que ainda não superou o ex, não é? Muitos se sentem ofendidos quando a gente fala sobre um abusador desgraçado que destruiu nosso psicológico e matou uma parte nossa. Por quê?
Por que falar sobre isso, sobre esses assuntos é tão ofensivo, se você não é um desses caras? Se você não é um agressor, um abusador… por que se ofender? A conversa não é sobre você. Ou talvez seja. Sobre você ficar mais ofendido com contos de ficção baseados em histórias reais do que com as estatísticas de violência contra a mulher. Sobre você gastar sua energia rebatendo uma ofensa que não é sua... e não gastá-la rebatendo seus brothers que foram violentos.
Vai continuar me chamando de louca impulsiva (que o provocou) ou parar de ser amiguinho de filhodaputa?