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 A fidelidade devia ser uma virtude facultativa.








A gente se conheceu num dia lindo, ensolarado. Na praia. Comendo picolé. Um jeito despretensioso de conhecer alguém que eu lembraria para sempre. Mas foi assim, num dia ensolarado na praia. Passou um vendedor de picolé. Ele veio comprar um na mesma hora que eu estava escolhendo qual compraria. Me recomendou o de tangerina ou o de limão. Muito refrescantes! Comprei o de tangerina, ele comprou o de limão. Sentamos juntos na areia para tomar picolé e trocar ideia. Eu provei o de limão, delicioso. Era limão com menta, aliás. Melhor que o meu de tangerina. Que papo bom o do moço de pele dourada de sol. Me ganhou na lábia. Risos.


Ele estudava na Esdi. Surfava alguns dias na Prainha. Morava em Copa, mas sonhava com a Urca. Naquele dia, tinha ido encontrar alguns amigos entre os postos oito e nove. Não se importava em estar nos arredores da barbie de amoedo e ser confundido. Sangue bom. Vestia bermuda, chinelo e uma camiseta jogada em cima do ombro. Sorriso charmoso. Um jeitinho de falar que… me ganhou na lábia, né? Risos. Ele me levou para a cama antes mesmo de me tocar. Tudo começou com uma conversa despretensiosa sobre qual picolé é mais refrescante. 


Começou a acontecer ali no posto oito, onde batemos papo pela primeira vez. Fumamos um no Arpoador. Laricamos na… como era o nome da creperia? Chez Michou? Bom, comemos um crepe. A gente se encontra mais tarde no Empório. Ele era um daqueles espécimes que só a zona sul seria capaz de produzir: surfista roqueiro simpático queimado de sol. Praticava Aikidô e tinha piercing no mamilo. Carioca sangue bom. Chegou recomendando um picolé e comprando um para ele. Horas mais tarde, terminou me pagando um jack e me convidando para um fim de noite no apê. 


O resumo é esse. 


Fomos para o apê, terminar a noite bebendo um chardonnay gelado ao som de Betânia. Eu e o carioca. O tesão, a tensão sexual… eram imensos! Quando nos pegamos, foi com aquela vontade de quem está com muita vontade, sabe? Um querer devorar o outro. Risos. Aqueles beijos cheios de línguas. Aquelas mãos naquilo nas mãos. Tira minha blusa. Põe meus mamilos na boca. Me deixa atiçada. Louca. Querendo. Ajoelhei para rezar e. Não deu. Não consegui. Virei atéia assim que visualizei o santo no altar. 

Olha, não sou uma pessoa tão exigente assim e meu passado me condena. Entendo que cada corpo é um corpo, cada um tem seu formato, tamanho, cor. Mas aquilo ali... aquilo ali parecia que tinha sido feito na correria, cinco minutos antes do expediente acabar. Juro! Risos. Eu olhei. Encarei. Fiquei paralisada alguns segundos olhando para aquele membro sem conseguir disfarçar o espanto e a estranheza. Ele percebeu. É claro que ele percebeu. Não consegui disfarçar. Você conseguiria? Risos.

Era um pau desapessoado. Sem presença. Sem carisma. Sem identidade. Provavelmente, a piroquinha mais inominável que eu já vi. Parecia um rascunho que esqueceram de entregar a versão final. Não era nem feio de um jeito curioso, como os pugs. Era um feio sem criatividade, um feio que dava pena e vontade de perguntar se estava tudo bem. Na minha cabeça, visualizei aquilo e , de repente, estávamos naquele silêncio constrangedor de quando alguém peida no elevador. Eu olhava e pensava: É isso? Esse é o personagem do meu fim de noite? Meu estado de espírito era algo entre incrédula e horrorizada. Não sei até hoje definir.

A minha cara me entregou completamente. Tentei manter a elegância, mas senti a expressão abandonando meu rosto. As sobrancelhas subiram sozinhas, os olhos arregalaram além do socialmente aceitável, e a boca ficou naquela posição de quem ia dizer alguma coisa, desistiu e… ficou processando a informação? Fiquei olhando, com aquela cara de incrédula horrorizada que perdeu qualquer resquício de tesão. O que a gente faz numa situação dessa? Como agir diante de…?

Foi uma mistura de desapontamento com susto. Decepção. A mesma cara de quem abre um presente enorme esperando uma Bottega Veneta e encontra uma panela. Ou de quem vê um vulto no escuro, toma um susto e descobre que era só um cabideiro — mas o susto já aconteceu e a cara já está lá. Pela forma que ele me olhou, tenho certeza de que meu rosto gritou o quanto eu realmente não estava preparada para aquilo. Fui uma péssima atriz e não consegui fingir normalidade. Mas sabe o que é? Eu não esperava aquilo. 

A reação dele à minha reação não foi das melhores. Naquele momento eu percebi que, se ele se sentisse autorizado, eu definitivamente não teria apenas voltado para casa.


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