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Ele era um animal se a música podia cativá-lo tanto?
A história sexual mais kafkiana absurda delirante canhestra da qual já fui personagem talvez seja o dia em que a arritmia se manifestou pela primeira vez. A gente estava num hotel na beira do lago. Havíamos ido passar o fim de semana lá. Coelhinhos felizes na orla. Risos. Na primeira noite, pedimos serviço de quarto para o jantar. Nossos planos eram comer e comer. Jovens felizes dormindo juntos fora de casa. O que podia dar errado, não é mesmo?
Esquecemos camisinha e, apesar de nos amarmos, não tínhamos nenhuma intenção de sermos pais naquele momento. Fomos ao centro atrás de uma farmácia aberta para comprar. Eventualmente, achamos e compramos. Já era tarde quando voltamos para o hotel. Éramos jovens, porém. Risos. Gosto de risos como uma pausa dramática. Aquele tipo de reação que a gente costuma chamar de riso frouxo, riso amarelo, riso nervoso ou simplesmente pausa pontuada por riso. Uma respiração, uma válvula de escape na fala. Um alívio breve de tensão.
Porém, éramos jovens e logo estávamos pelados trepando. Risos como vírgula sonora, um risinho usado para pontuar o fim de uma frase. Eu estava quase gozando e não gozei. Foi tudo muito rápido. Comecei a sentir o coração muito, muito acelerado. De uma forma que nunca havia sentido antes. Tum tum tum tum tum tum tum! Muito rápido! O som interno que eu ouvia era cada vez mais alto e rápido! Tum tum tum tum tum tum tum tum tum! E, de repente, eu desliguei. Exatamente isso. Desliguei. Acordei não sei quanto tempo depois.
Acordei não sei quanto tempo depois pelada em cima da cama. Ao meu redor, ele de cuecas chorando desesperado, socorristas do SAMU, recepcionista do hotel. E eu acordei pelada com esse tanto de homem ao redor, sem entender o que havia acontecido. Já pensou? Risos. Diagnóstico: desmaiei fazendo sexo. Isso mesmo. Desmaiei durante o ato. Risos. Estava muito calor. Desmaiei. Ele entrou em pânico, ligou para a recepção, fez massagem cardíaca, primeiros socorros coisa e tal, chamaram SAMU. Pacote completo.
Eu só queria um fim de semana tranquilo fudendo com meu namorado. Acabei protagonizando uma história que certamente todos os envolvidos contarão para alguém em algum momento. Fomos atender uma moça que desmaiou transando! Risos. Eu tinha uma arritmia que só foi descoberta alguns dias depois, ao fazer exames no cardiologista. Foi sorte ela ter se manifestado e me desligado numa ocasião tão íntima?
A história sexual mais kafkiana absurda delirante canhestra da qual já fui personagem talvez seja esse dia. Ou será que foi quando o cara dormiu sendo sentado, de pau duríssimo?
A continuar.