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 Filha, a tua fé te salvou; vai em paz e sê curada deste teu mal.







Eu tinha treze anos e estava no intervalo, no recreio da escola. Estava ali conversando com as amiguinhas perto dos campinhos de futebol. De uniforme, claro. Escondidos embaixo de uma blusa grande, os seios que estavam crescendo. Por baixo da calça, um absorvente. Daqueles tijolos da época. Grandes e desconfortáveis. Fazia menos de 2 anos que eu havia menstruado aos onze. Nessa idade eu era só uma menina me transformando enquanto me achava esquisita e não entendia bem as transformações. Tomava buscopan para as cólicas e tinha queda de pressão. 


Eu tinha treze anos e estava conversando com as amiguinhas no recreio. De repente, apareceram três meninos correndo e gritando e, ao passar atrás de mim, enfiaram a mão lá. Sim, lá entre as pernas, por trás. Eu já estava desconfortável com aquele absorvente… a mão ali foi um estopim. Explodi. Gritei. Xinguei. Chorei. Chamaram meus pais na escola. Eu tinha treze anos e disse aos adultos responsáveis, (pais, diretora e professores), chorando, que eu não ia sentar na mesma sala de aula que aqueles abusadores mirins para assistir ao resto da aula. 


Explodi. Gritei. Xinguei. Chorei. Acabaram chamando os pais de todos os envolvidos blablabla. No fim, ao chegar em casa apanhei. Apanhei e fiquei de castigo. Eu tinha treze anos e havia acabado de sofrer uma agressão, um abuso, de meninos na escola. Meninos da minha sala! E todos os adultos responsáveis agiram como se não fosse nada demais e eu fosse uma histérica exagerada. Não foi tão grave, deixa os meninos serem meninos. Blablabla. Eu tinha só treze anos! Por que os meninos podem abusar das meninas desde cedo e todo mundo age como se fosse normal? Talvez hoje eu fique mais putaralhaça com isso hoje do que fiquei lá atrás, aos treze.

Cheguei em casa, apanhei e fiquei de castigo. Genial! Por favorzinho, não repitam isso quando a filha de vocês contar que passaram a mão nela! Talvez o não aceitar que encostem a mão em mim tenha a ver com infância e início de adolescência, quando eu era muito fraquinha para reagir. Era pequena e franzina, embora aos treze já tivesse a altura atual. Eu apanhava por qualquer motivo para educar. Meu pai me batia, enquanto minha mãe se omitia. Usava colher de pau para a agressão. Sim, colher de pau. Marcava. Doía. E, provavelmente, explica porque nunca derramei nenhuma lágrima, no velório ou no enterro. Eu não nutria afeição. Deveria?

Prometi a mim mesma que nunca mais nenhum menino chegaria perto dessa forma e virei uma ela é muito difícil tipo de pessoa. Quanto ao meu pai, não chegou mais perto emocionalmente. Por óbvio. Você confiaria numa pessoa que te bate com colher de pau? Gostaria dela? Eventualmente saí daquela escola católica apostólica romana... mas a violência não deixou de ser física nem desapareceu. O físico passa a ser secundário em algum momento de nossas vidas? Ou apenas passamos a identificar também o emocional, psicológico? E o social? Um metro e sessenta e nove, vulnerável por existir. Eu era uma menina virgem, sem peito e sem pelos... e alguém se achou no direito de enfiar a mão?... Isso não deveria ser tratado como normal. Homem é assim mesmo?

Corta pro dia em que fui com meu namorado numa festa de Halloween num local inusitado: uma casa de swing. Culpabilizados diriam que eu mereci, afinal estava num antro de pecado. Risos. Promíscuos, fomos andar e nos perder no labirinto naquela casa de swing. Num canto, fui agarrada por um desconhecido que, como eu, estava de máscara. Me agarrou, beijou e colocou o pau grande para fora. Enfiou o dedo na minha buceta. Involuntária e automaticamente, o empurrei e puxei meu parceiro para sairmos dali. Corri ao banheiro para me limpar, me lavar de alguma forma.

Minha sensação foi de ânsia. Nojinho e raiva. Me senti invadida com aquele dedo entrando assim na minha buceta seca, sem nenhuma pegação que levasse a isso naturalmente... me preocupei pensando se estava sujo, em quantas havia entrado assim aquela noite... um milhão de paranoias. Corri ao banheiro para me lavar. Tomei um drink, dançamos mais um pouco. Vamos embora? Eu não estava mais à vontade. Tem como estar? Já havíamos ido nessa casa antes, não era exatamente uma novidade. Da última vez, exercitei meu lado voyeur  o vendo se esbaldar em rabo alheio. Até chupei aquele pau patético do parceiro dela apenas para excitá-lo. Risos. Mesmo em episódios risíveis como esse do pauzinho xoxo, havia consentimento, não foi forçado ou invasivo.





A vida é, sim, aleatória assim. Por que não poderia ser?


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