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O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso,
um dia a menos nela.
A chegada aos enta é reveladora e brutal. Doppia década de mudanças e definições
Pela primeira vez em tantos anos de relacionamento, me sinto insegura. Não sei se é porque aos enta a consciência de estar envelhecendo fisicamente chega pra ficar. Não sei se é porque há pouco tempo passei por uma cirurgia pela primeira vez. Não sei se são os hormônios em suas festinhas particulares. Mas pela primeira vez desde que começamos a nos frequentar, sinto alguma insegurança.
Sou casada com um homem interessante, bonito, que vai à academia religiosamente todo dia. Ele é mais novo e isso nunca foi um problema. Mas agora, de alguma forma, é. Meu rosto no espelho, cheio de marcas. Eu não sei porque é um problema. Mas de alguma forma é. Envelhecer é um processo solitário, mesmo quando estamos juntos. Tenho a sensação de tempo acabando e gostaria de ter mais tempo pra viver com as pessoas que gosto. Parece loucura, mas é que estou morrendo embora esteja saudável.
A insegurança joga a gente pra perto do penhasco. O medo puxa a mão dela. Os enta trouxeram o medo de morrer sem ter tido tempo, mas pelo menos não tenho mais medo de soar ridícula ou vulnerável dizendo que tenho medo. Risos. Nunca tive nenhuma e, de repente, estou cheia delas, tal qual uma adolescente. Algo estranho sobre envelhecer. Estar mais forte e se sentir mais fraca e vulnerável. Por um lado, são os hormônios. Por outro, acho que a gente não fala o suficiente sobre como esses desgraçadinhos (os hormônios) afetam tudo. Tudo!
Nunca tive nenhuma insegurança, até que a pandemia chegou junto com a perimenopausa. Fiquei mais dentro de casa, sem academia, com os hormônios enlouquecendo sem que eu percebesse. As roupas foram ficando apertadas. Um dia, me pesei na farmácia: 89 kg! Oitenta e nove quilos! Passei a me enxergar como uma baleia deformada a partir daquele momento em que vi aquele número na balança. Não conseguia me olhar no espelho! Aquele era, de longe, o maior peso que eu já havia pesado na vida. Me senti um lixo. Um nojo.
Acho que foi assim que essa sensação estranha começou. Eu olhava pra ele, todo lindo, com aquelas costas fortes, aquela bunda redonda e durinha, aqueles braços. Sempre tive tesão naquele corpo, naquele rosto. E, repentinamente, não tinha mais. Ele chegava perto, fazia menção de me tocar e eu ficava com nojo - não dele, de mim. Não me sentia mais à vontade pra ser tocada, vista. Complexo, né? Eu me ver enorme me tirou a autoestima que me tirou a libido. Me via enorme e velha casada com um jovem em forma. Tudo que ele me dava era segurança e, ainda assim, eu me sentia insegura.
Ele sempre fez questão de demonstrar que tinha tesão em mim, que me achava linda. Jamais tive qualquer dúvida sobre o amor e o companheirismo dele. Não era ele, era eu. O desejo havia me abandonado? Num dia qualquer de inverno, ele tirou aquelas fotos. Eu estava me sentindo imensa, deformada. Não aguentava me olhar no espelho! E ele tirou aquelas fotos bonitas, delicadas. Pra variar, me viu com mais gentileza e beleza do que eu mesma. Naquele dia transamos loucamente como não fazíamos há tempos. Uma transa gostosa, sabe? Dessas demoradas, por partes, deliciosamente envolvendo o corpo inteiro, os sentidos. Mas no dia seguinte… no dia seguinte eu já estava desgostosa de novo.
O espelho me mostrava a verdade distorcida que meus olhos enxergavam.
Horrorosa.