39

 Vê-se que os homens não sabem, nem podem adivinhar o que vai no coração de uma mulher.







No livro das histórias de decepção ligadas a figuras masculinas, talvez o anjinho barroco seja um dos personagens mais ímpares. E não porque ele me prometeu mundos e fundos e, no final, foi só mais um inútil sem serventia nem pra sexo. Mas porque eu não imaginava que pudesse existir algo tão pequeno e que alguém pudesse morrer de forma tão idiota. Um forno e uma coifa dako. Caíram em cima do putto. E era uma vez uma estátua grega. Caiu. Quebrou. Deixou uma viúva grávida e duas crianças pequenas. Fim.


A história mais surreal sobre gente conhecida que ouvi até hoje. Estava fazendo mudança e morreu vítima de um forno e uma coifa dako. Fiquei anos sem ver nem ouvir falar nele. Até que uma conhecida que eu também não via há anos apareceu contando aquela história dos eletrodomésticos dako. Sim. O menor pau do mundo morreu vítima dos dako enquanto fazia mudança. Visualizei essa cena, o negocinho, e ri.


A conhecida quis nos chocar sentando na nossa mesa e contando essa história? Talvez. Só que eu, deselegantemente, ri. Genuinamente ri. Ri e ela me olhou com aquela cara de desentendida. Ué, como assim rindo? Rindo. Imediatamente lembrei do mini ob. Do beijo desengonçado. Das mãos. Dos dedos que não serviam pra nada. Da língua esquecida, desaparecida. Uma das transas inesquecíveis da minha vida. Risos. É claro que eu ri quando a fulaninha contou. Que destino pra um negócio tão pequeno. Risos. O problema é que eu fui a única na mesa que riu.


Silêncio.


Perdão. É um pouco difícil não rir de um fim desse, ridículo, pra um pauzinho daquele, ridículo. A ironia da história é que, no fim das contas, a ridícula era eu. Recém chegada aos vinte, apaixonadinha por um esquerdomacho que não tinha nenhum atrativo, nem o pau. A gente não percebe, mas aos vinte não passamos de meninas, crianças, idiotas. Jovens egóicas (como toda jovem), que se deslumbram com qualquer migalha de atenção masculina. Sempre em busca do príncipe encantado, ainda que veladamente. 


É exatamente isso. Conheci um jurandir numa aula qualquer da universidade. Ele era educado e gentil, politizado, ao contrário dos ogros que conheci naqueles poucos anos de experiência enquanto estudava pro vestibular. Mineirinho. Com o distanciamento proporcionado pelo tempo, consigo entender o porquê. Teria sido ótimo, se não tivesse sido decepcionante. Passamos o semestre inteiro naquelas aulas, naquela tensão sexual. Pra terminarmos num estacionamento qualquer da asa norte, sem graça e perigoso. Olha aí jovem sendo jovem e fazendo jovenzice! Pelo menos ninguém gastou dinheiro com motel. Risos.


A primeira e última vez que transamos foi Ele colocou e eu não senti nada! Era mais parecido com um dedinho do que com um pau. E acabou tão rápido que não deu tempo nem de ficar entediada com aquele vazio sem ritmo. Eu passei um semestre inteiro flertando, ficando de vez em quando com ele, pra acabar num boquete e uma trepada de baixa qualidade? Por que fui em frente após o boquete? Por quê?


Naquela época eu era outra, embora eu continue sendo a mesma.



Postagens mais visitadas deste blog

1

23

11