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 Who looks outside, dreams; who looks inside, awakes.








A mãe dela era linda! A mulher mais elegante dentre todas as mães de todas as minhas amigas. Hoje, entendo que é porque era a única divorciada. Risos. Em vez de gastar tempo, recursos e energia com encosto, gastava com si mesma. Ioga, academia, uma ótima dermatologista. Uma companhia fugaz de vez em quando. Risos. Ela era tudo que eu queria ser quando crescesse. Magra, bonita, realeza do serviço público. Benefícios. Porte de arma e aulas de tiro. Namorados mais novos. Férias na praia. Ela era tudo que eu queria ser. Se a palavra liberdade tivesse uma cara, seria a dela.


A mãe era absolutamente irresistível. Mas havia a filha.. ah, a filha! Morena de lábios finos e olhos amendoados. Cabelo liso, castanho claro, até os ombros. As covinhas nas costas, ali naquela descida pra bunda. Magra porém forte, corpo de bailarina. Charmosa. O sorriso… o jeito de levar as mãos aos cabelos… o jeito de fechar a boca após beber um gole de qualquer coisa… Ela era uma extraterrestre. Só podia ser. Magnética. Ela também gostava de Pink Floyd, Nirvana e Pearl Jam. Quando ela chegou lá no colégio, logo fizemos amizade. A aluna nova, irresistivelmente feita pra mim. 


Ela morava na seis, então a gente ia com frequência ao Patureba. Depois passávamos a madrugada no quarto, ouvindo Cássia e Cazuza. Eu dormia na casa dela quase toda semana, pra não precisar pagar táxi de volta pra casa de madrugada… e também pra ficarmos juntas. Era mais confortável lá do que na minha casa. A mãe dela era mais liberal e, hoje, a vejo como mais pragmática. Ela preferia que ficássemos em casa, que bebêssemos em casa, que fumássemos em casa. Passávamos muitas e muitas noites ouvindo Legião Urbana, bebendo alguma coisa, fumando até a última ponta. Ali, em segurança, na casa dela.


Minha mãe era diferente. Funcionária pública do baixo clero, conservadora, sufocante. Invejosa. Uma mulher infeliz que parecia se esforçar pela infelicidade de todos ao seu redor. Naturalmente, eu preferiria ficar longe quanto tempo conseguisse, em qualquer oportunidade que surgisse. Qualquer pessoa preferiria. Eu aproveitava a distância da mulher que me pariu pra passar a noite com a mulher que me enfeitiçou. Me mudou. Conhecê-la e conviver de perto com ela e com a mãe dela me mostraram que relação saudável, diálogo, confiança, acolhimento… essas coisas que nunca tive existiam, eram possíveis.


Eu me sentia mais à vontade na casa dela. Nossa convivência durou do terceiro ano ao vestibular e calouras na universidade. No segundo… ela não me atendia mais. Foi passar férias de verão no sul com a família e, quando voltou, não me ligou nem me atendeu. Quando a encontrei de novo, ao acaso, ela andava pelo minhocão de mãos dadas com ele… Aquele cara que. Mudaram as estações. Estava tudo assim tão diferente, até a forma que ela me olhava. O desejo, a segurança, a familiaridade, a proximidade do olhar parecia ter sumido. Cheguei a acreditar que tudo era pra sempre, sem saber que o pra sempre, sempre acaba. O que havia acontecido com todas aquelas noites ao som de Cássia e aos beijos ardentes? O que havia acontecido com aquele arrepiar de pele de quando chegávamos perto uma da outra? Os desabafos, as confissões, os gozos. O que havia acontecido com tudo o que vivemos, com toda a cumplicidade?






Eu nunca soube o que aconteceu.

Meu primeiro amor. Meu primeiro coração partido.


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