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A paixão ali, naquele ambiente de lodo e de sangue, era uma coisa brutal e imperiosa,
que não tolerava subterfúgios nem demoras.
Você não quer que eu seja honesta. Se eu for, se eu disser.
Você não quer que eu seja honesta. Se for, se eu disser a verdade, o que eu penso… Se eu disser que sua boca tá igual um bico de pato-real e que esse espanador que você colocou no olho tá ridículo… Se eu disser que seu botox tá tanto que tá parecendo uma madame tussauds… Se eu disser que você emagreceu tanto que tá parecendo um cadáver… Se eu disser que você ficou horrorosa e vulgar com essa roupa… Enfim. Você não quer que eu seja honesta. Você, como todo mundo, prefere aplausos, ainda que absolutamente falsos.
É assim que a gente mantém as amizades? Os relacionamentos? As famílias? Se omitindo de ser honesta? Sei lá. Há anos me omito, ao mesmo tempo em que me mantenho distante pra evitar em algum momento ser honesta? Risos. Sou muito fechada. Muito distante. Muito fria. Dizem. A verdade é que me omito pra não ser honesta. Quem não expressa o que pensa é poupado de tanta coisa! A realidade, mesmo quando comunicada açucaradamente, não é bem aceita. Basta ser confrontada com a idealização, com a crença. A realidade comunicada é mal vista, ninguém gosta dela.
Tive muitas amigas que nunca souberam o quanto eu as achava fúteis ou patéticas. Roupa. Maquiagem. Homem. Macho-centradas. Beleza-centradas. Muito demais da conta. Os assuntos, os interesses me entediavam profundamente. Me gerava incômodo. Eu nunca me identifiquei com isso e detestava forçar, fingir (embora fingisse bem). Sempre fingi bem tanta coisa nessa vida… Esconder meu tédio diante dos assuntos de amigas pra continuar tendo vida social e sendo convidada pras coisas? Quem nunca? Risos.
Ao longo da vida, mesmo aquelas com quem temos conexão genuína se envolvem com jurandires e acabam os defendendo. Elas não querem que eu seja honesta. Amiga, para de correr atrás de macho mal diagramado peloamordedeus! Você não quer ouvir isso, embora precise. É deplorável gente acima dos enta vivendo em função de agradar macho, de chamar atenção de macho! Você não quer ouvir isso, embora precise. E o paradoxo é que, caso ouça, você vai criar ranço da amiga que foi honesta e te jogou a realidade na cara. Você precisa ouvir, e não vai ouvir.
Eu já estive nesse lugar de não-escuta. Passaram-se 3 anos, uma tentativa de suicídio e uma separação conturbada. Em vez de ouvir quem tentou falar comigo sobre o jurandir, me afastei das amizades. Eu precisava ouvir, mas eu queria ouvir? Dói encarar a verdade. Se responsabilizar. Porém, é libertador encarar de frente e aceitar a verdade. Sem vergonha. Sem medo. Sem desculpas. Espelho, espelho meu, existe alguém mais patética do que eu? Medíocre, talvez? Desperdicei 3 anos da minha vida presa a alguém que eu deveria apenas ter deixado ir no primeiro deslize, nas primeiras red flags. Já me perdoei por isso?
Pelo menos aprendi. Aquilo não era amor. Era dependência. Ilusão. Prisão. Aprendi a apreciar a honestidade. A verdade. A lealdade. É melhor saber qual a realidade do que viver uma mentira como eu vivi. Uma das minhas amigas transando com meu namorado no sigilo, lembram? Não sei até hoje quem dentre vós sabia, e quem estava tão pasma estarrecida quanto eu. Perdi a confiança em todas? Eu precisava ter ouvido ele está te traindo com a fulana, pare de ser feita de palhaça! Tantas sabiam, e apenas se omitiram. O que sei é que nunca mais fui a mesma. Se isso é bom ou ruim é outra história… Risos.
Não me importo mais em ser honesta. Ao mesmo tempo, não sou desonesta. Fico na indiferença. Na neutralidade. No meu canto. A omissão enquanto ação diária. Fazer a sonsa e fingir normalidade é uma arma subestimada. Não faz nenhum sentido isso que estou dizendo, ou faz? Acho que não faz. Mudei. Não me importo mais. Fico em paz. Muito confuso? Somos feitos de nuances, sem preto no branco. A escala pantone inteira me colorindo. O trauma não me transformou pra melhor. As cores são de indiferença. De desconfiança.
Estou transando com o marido de uma das minhas amigas. E não ligo. Essa é a falta de moral da história.
Eu sei o quanto isso é uma patifaria de baixo calão. Pode dizer o que acha; impossível ser pior do que o que eu acho. Uma hipócrita sem moral. Dessensibilizei? Preciso ser verdadeira e leal com quem me traiu no sigilo? Ser conivente e silenciar não é, também, traição? Não sinto nada quando penso sobre o que ela sentiria. Tenho certeza que não sou a primeira amante daquele embuste gostoso com o qual ela se casou. Não sinto nada, nenhuma culpa, remorso ou arrependimento. Gosto de transar com ele e é isso.
Às vezes, sinto que olhei demais pro abismo. O clássico clichê: investigar as profundezas da escuridão humana e se corromper. Absorver e reproduzir as mesmas características que tentei combater parece irônico. O vazio. A ausência de sentido. Quais são minhas angústias e sombras? Essa essência caótica não pode ser só hormonal, se apareceu quando ainda havia abundância de colágeno. Meus instintos mais sombrios… quais são? Há como contemplá-los, sem que a energia seja sugada e me consuma?
É, olhei demais pro abismo.