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Doer, dói sempre. Só não dói depois de morto.
Porque a vida toda é um doer.
Aquele dia a gente bebeu uma garrafa de vinho, comeu uma pizza, fumou um baseado, tomou uma ou duas ou três doses de whisky. Risos. E entortou a mesa de sinuca. É. A gente entortou a mesa de sinuca fazendo sexo. Uma mesa profissional. Na varanda de uma bela casa no Lago. E a gente simplesmente entortou a mesa. Risos. Como? Coisas que acontecem nos bastidores de trabalho, entre chefe e subordinada quando há tesão e história mal resolvida envolvidos.
Estávamos há alguns anos sem chegar perto um do outro como homem e mulher. Longos e nada tenebrosos anos. Mais de duas décadas, talvez? Ele foi meu primeiro, o cara com quem eu perdi a virgindade. O primeiro aquilo naquela. No dia seguinte à uma foda foda, na qual gozei sendo chupada, o encontrei no bar. Ele estava numa mesa de amigos, com outra. Isso mesmo. Ele estava no bar, numa mesa de gente que também me conhecia, de mãos dadas beijando outra.
Um dia me chupa até que eu goze, afinal foi isso que facilitou a penetração... No dia seguinte está no bar ciscando pra penetrar outro corpo. Num dia usa a língua pra me deixar molhada ao ponto de perder a virgindade sem dor nem dificuldade. No outro está ali, com a língua dentro da boca de outra. Foi minha primeira traição. Minha pressão caiu e eu quase desmaiei quando o vi beijando outra casualmente, tomando uma cerveja. Eu achava que namorávamos e descobri, talvez de uma das formas mais filhas da puta possíveis, que eu era uma das meninas com as quais ele estava saindo. Uma das.
Eu conhecia até a família dele! Era uma das. E todo mundo sabia. Perceber aquilo matou algo em mim. Há descobertas que promovem transformações (não necessariamente boas). Acho que nunca mais acreditei totalmente em alguém. Nunca mais confiei. Dezoito anos é muito cedo pro cinismo passar a fazer parte de quem somos? Depois de quase desmaiar no Arabeske, dei uma sumida daquele meio. Naquele dia, respirei fundo, cumprimentei todo mundo com um sorrisinho apagado, segui pra fora, pra calçada, e desci pro Beirute. Minha perna estava bamba quando sentei. Coração acelerado e perna bamba.
Respirei fundo. Tomei uns diabos verdes. Terminei a noite na buatchy, living la vida loca. Acordei de ressaca. Nunca mais chegamos perto um do outro como homem e mulher. Nos anos seguintes, fiz o possível pra evitá-lo e funcionou. Até que comecei a trabalhar numa empresa - ele era o chefe que estava de licença quando fiz entrevista e fui contratada. Tive semanas iniciais positivas no job novo, estava animada. A equipe parecia legal. A empresa era grande. Passei pelo período de experiência sem grandes dificuldades. E, de repente, ele, o chefe que eu ainda não conhecia, voltou de licença.
Na primeira vez que o vi, fiquei mais branca que o gasparzinho. Ele agiu naturalmente, como se estivesse sendo apresentado. Me cumprimentou, disse que já haviam falado bem de mim e que estava ansioso por me conhecer. Sabe como meu corpo reagiu a isso? Fiquei molhada. Juro! Mais de uma década sem ver o cara e meu corpo faz isso!? O comportamento dele foi tão absolutamente normal nas semanas e meses seguintes, que passei a me questionar se ele havia me reconhecido. Será que não me reconheceu? Será que fui tão irrelevante que ele não lembrou quem eu era? Eu nunca saberia, nem forçaria saber - com ambiente de trabalho não se brinca. Onde se ganha o pão, não se come a carne?
Não deveria ter churrasco na padaria, mas a vida não segue regras e chegou o dia no qual fui escalada pra fazer VT com ele numa casa onde potencialmente faríamos um evento. A tensão sexual era óbvia durante toda a visita. Havia algo sobre o jeito como ele me olhava. Sobre o tom de voz. Na varanda, ele abriu o laptop e perguntou se podíamos pedir uma pizza. Uma garrafa apareceu não sei de onde. Toma uma dose comigo enquanto esperamos a pizza e discutimos a viabilidade do local?
Inesperadamente, a gente estava conversando naquele pós-pizza, tomando mais uma dose. E mais uma. O papo indo pra lugares que talvez não devesse ir. Nenhum dos dois adultos da varanda parecia querer recuar. O que a gente não fez naquela época que você gostaria de fazer? Hum... anal. A gente não fez. Nunca comi seu cu. Eu ri. Tomei um gole. Ele veio pra cima de mim, tirou o copo da minha mão e começou a me beijar. Retribuí. Ele abriu e abaixou minha calça, se ajoelhou, abaixou minha calcinha e colocou a língua pra trabalhar.
Puta que pariu, que trabalho bem feito! Se deu tão bem com meu clitóris, que nem senti quando enfiou um dedo. Só gemi. O tesão era tanto e eu estava tão molhada, que nem senti quando ele enfiou. Aconteceu de forma fluida, natural como naquela primeira vez lá em mil e novecentos. Me virou em cima da mesa de sinuca, de costas... Que bunda linda! Enfiou com calma, tranquilidade. Que cuzinho gostoso! Eu estava na varanda, de calça abaixada, podendo ser vista por qualquer vizinho, dando o cu pela primeira vez pro meu primeiro. Ele fez valer essa única chance – meteu com tanta força que achei que ia me arrombar, mas só arrombou a mesa de sinuca mesmo.
Nunca mais nos pegamos. Até hoje. O futuro não sei, mas acho improvável. Pedi demissão e fui atrás de outra vaga, em outra cidade. Aquela mesa de sinuca entortada até hoje não faz sentido pra mim. Que fraqueza é essa? Por que deixar alguém que me quebrou… por que deixar chegar perto de novo? Coisa de animal no cio, incontrolável. O pior é que eu não sei se faria isso hoje. O que nos leva a nos colocarmos em situações de risco emocional? No decorrer da vida, vamos nos transformando num mosaico de coisas partidas: as que partiram e as que se partiram. A gente vai se rasgando e se remendando enquanto vive.
Fulana, você é uma mulher, sua vadia.