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Em certa idade é tão natural o devaneio como a travessura.
Sexo verbal não faz meu estilo, palavras são erros e os erros são meus... Não quero lembrar. Que eu erro. E errei feio. Humana, erro. E não sei se me perdoo pelo erro. No apê da vizinha? Perder a virgindade desse jeito, numa festinha no apê da vizinha? Alvorada voraz né. Os pais viajavam, a gente dava um jeito de arrumar bebida, colocava um som, chamava os amigos e tínhamos uma festa. Adolescentes adolescendo.
Naquele dia, fumei meu primeiro cigarro de bali. Jose (Cuervo) para acompanhar. Todo mundo fumava. Todo mundo bebia. Ainda toca música lenta nas festinhas? Tocava. E ele me tocou enquanto dançávamos. Aquelas mãos que descem pela cintura, quadris, bunda. Ele me beijou e eu congelei. Era o irmão da vizinha! Retribuir ou não retribuir? Burra e inocentemente, deixei acontecer.
Retribuí e acabei no quarto. Genial. Pelada. Pernas abertas. E um pinto indo e vindo. Não, pera! Esta é uma outra vez. Nesta, entrei em desespero antes. Foi a do hímen rompido, apesar da falta de ação propriamente peniana…? Ele me levou para o quarto. Amassos. Vamos pra sala… quero dançar… Eu, de vestido. Ele continuou em cima de mim… ignorou meu não e enfiou os dedos. Gritei. Me contorci de dor. Assustado, ele tirou a mão dali… suja de sangue. Ele me olhou, riu e seguiu para a sala, orgulhoso, de mão erguida, falando alto. Ela era virgem!
Virei motivo de chacota. A virgem de 17 anos! Depois desse episódio, só consegui fazer sexo aos 20, com um namorado. Só gozei anos mais tarde. Bullying faz esse tipo de coisa, né. Seu corpo é fruto proibido, é a chave de todo pecado e da libido. Naquela noite, saí do apê da vizinha, atravessei o corredor, abri a porta e voltei para casa. Nada havia mudado. E tudo havia mudado.
Fiquei tão traumatizada com aquilo tudo que nunca mais fui em nada que a vizinha me convidasse. Eu não entendia como as coisas funcionavam, essa é a verdade. Ignorante involuntária que só foi entender como os bebês eram feitos nas aulas de biologia no segundo grau. Os pais acham que nos protegem ao não falar sobre o assunto proibido que começa com se e termina com xo? Te protegeram?
As meninas de hoje continuam caindo nas mesmas situações, mesmo com toda informação do mundo na palma da mão. Olha a sua sobrinha, nos perguntando se ela era normal por… lembra? Já cheguei a achar que eu era estranha. Esquisita. Degenerada. Por gostar de algumas coisas fora do tradicional. E, principalmente, por ter passado por algumas coisas que eu acreditava serem fora do tradicional. Não eram. Décadas mais tarde, sei que não eram. Ao contrário, significavam o mais profundo conservadorismo tradicional. Sexista. Patriarcal. Eu era só uma mulher. Uma mulher. A pior coisa que alguém pode ser. A gente ri descrente, de nervoso.
Você já falou para si mesma, em voz alta, algumas coisas que você viveu? Tudo normalzinho, rotina de meninas comíveis. Já contou as histórias para si mesma, em voz alta? Já notou como tanta coisa soa absurda vista com o distanciamento do tempo? Sou a única que, de vez em quando, pensa sobre essas coisas? Absurdos absurdantes absolutamente normais. Normalizados.
Trinta anos depois, o que será que eu diria para aquela moleca de 19 que se achava muito adulta e querida, mas era só a isca ou o buraco da vez? Rosa. Pink pussy, disse o desgraçado ao me fuder doente, saindo da emergência hospitalar. Era só o buraco da vez. Rosa. Saindo do hospital, após tomar remédio para dor na veia. O cara parou o carro no acostamento, me falou para tirar a calcinha (eu estava de vestido), veio para cima de mim, colocou o pinto para fora, enfiou em mim… mete mete mete gozou e tchau. Me deixou em casa. A jovenzinha no auge da ignorância juvenil, se achou especial por ter um homem que gosta dela a levando ao hospital.
O bom da juventude é que um dia o córtex pré-frontal termina de se formar, né? A gente deixa de ser inocente e de tomar decisões estúpidas mas, infelizmente, a gente nunca deixa de ser mulher. Se relacionar com homens é isso. É?