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…nós, as criaturas humanas, vivemos muito (ou deixamos de viver) em função das imaginações geradas pelo nosso medo. 







Acho que só me toquei dessa verdade brutal perto dos trinta. Esses silêncios todos. Cúmplices. 


Se eu pudesse voltar no tempo, não teria ido àquele encontro. Assim como tantas mulheres da minha geração, eu sofri tantas violências ao longo da vida, sem reconhecê-las enquanto violências, que perdi as contas! Não falávamos sobre as coisas e nossas mães, em geral, também não. Não entendemos, ainda, que pode ser qualquer um. Amigo, tio, irmão, pai, avô, pastor. Qualquer um. Criança, adolescente, adulta, idosa. Rica, pobre. De todas as cores. Qualquer uma.


Eu era uma ignorante quando comecei minha vida sexual. A única coisa que eu sabia é que precisava usar camisinha, e isso devido a Cazuza, Freddie Mercury e Renato Russo, não à escola ou à família. Me puseram pra assistir Cristiane F. na escola - supostamente, nos manteria com medo e, assim, afastados das drogas? Não sei o que pretendiam, mas foi assim que conheci Bowie. E, naquela época pré-internet, foi assim que eu soube que meninas da minha idade podiam ganhar dinheiro com as mãos, com a boca.


Considerei fazer isso, sabia? Naquela idade egóica ridícula em que queremos fugir de casa. Risos. Considerei. Mas tinha nojo. Eca! Só de pensar me dá nojo. Pegar no negócio daqueles velhos caquéticos que me olhavam como se eu fosse uma carne no açougue em troca de dinheiro. Nojo! Considerei, naquela revolta adolescente ridícula. Não fiz. Em vez disso, perdi a virgindade com um idiota de pau pequeno. De graça. Um sem criatividade que só sabia falar você é muito gostosa enquanto me fodia mal.


Nosso relacionamento durou mais duas ou três fodas depois da primeira. Nunca mais o vi. Hoje entendo que fui só um depósito pra um carinha mais velho que não me enxergava como nada além disso. Fui pra vários ao longo dessa vida, eu acho. Não acabamos sendo todas? Dizem coisas pornográficas, gozam e somem. No meu caso, sumi, não fui sumida. Pouco importa. Duas ou três foi muito, não deveria ter passado da segunda. Em muitos casos, não deveria ter nem a primeira. Red flags gritando! E nós… insistimos, somos mal fodidas. 


Por que insistimos em quem não performa como deveria? Teve um fulano que me chamou de potrancona enquanto me comia de quatro. Juro! Risos. E eu ainda saí uma segunda vez com ele? Gozo zero, e eu insisti. Ainda ouvia pornografia de baixo orçamento. Qual a coisa mais pornográfica que já te disseram? Não sei? Depósito de porra. Me senti um lixo. Ele simplesmente enfiou na minha rabeta e me chamou de meu deposito de porra enquanto gozava raivoso. Se houve um dia na vida no qual eu podia ter sido chamada de arrombada, foi aquele. Nenhuma libido. Nenhum tesao. Um filme pornografico violento, no qual só um dos personagens gozava. Se eu pudesse voltar no tempo, não teria ido àquele encontro.


Fui lembrando, e lembrando, e lembrando… Quantas experiências objetificantes, no pior sentido da palavra, temos ao longo da vida? Hoje, consciente, reconheço que me disseram e fizeram muitas coisas pornográficas nas quais eu não estava envolvida, senão em presença física, coadjuvante. Quantas vezes sexo foi sinônimo de uma coisa que faziam comigo?   Enfiavam na minha… buceta é muito agressivo? Vagina é meio clínico demais. Pepeca acho muito infantil. Enfiavam em mim, pronto. Quem nunca se sentiu uma boneca inflável? Não tínhamos onde ler sobre isso. Não conversávamos umas com as outras. Muitas vezes, achávamos que certas coisas eram normais.


Não eram. Não são. Só me toquei disso tudo perto dos trinta… e ainda me surpreendo com as coisas que vou enxergando cada vez mais. Depois que a gente vê, fica complicado desver. Acho que por isso não consigo mais me relacionar com homens. Eu os leio em questão de minutos, pelo olhar, pelas palavras, pelos gestos. São entediantes. São, sobretudo, egoístas. Alguns são perigosos. Eu já gozei mais vezes com os meus dedinhos e com o coelho do que com pintos. E eles acham que a vida gira ao redor de pintos… 


São profundamente homoeróticos. Embora comam mulheres, amam e admiram uns aos outros, somente (assim como temem).


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