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A platéia só é respeitosa quando não está entendendo nada.
De repente, eu era uma desconhecida pra mim mesma.
Os anos de mudança começaram há pouco tempo. Eu não sei exatamente quando. E, da mesma forma que não consegui chegar aos 50 sem botox, não foi possível festejar cinco décadas sem hormônios.
Pois é, a primeira novidade é que fiz botox. Não foram as férias na praia que me rejuvenesceram, como julgam algumas colegas de trabalho. Foi o botox. O estimulador de colágeno. E o laser. Não consegui chegar aos 50 sem intervenções. Que hipócrita, né? Fala em aceitação, e taí fazendo botox e estimulando colágeno, gastando dinheiro com creminhos e máscaras faciais.
Sim, aceite-se. Antes de continuar, uma dica às mais jovens: ninguém precisa de intervenções aos 25, aos 30. Ninguém precisa ficar com cara donatellizada. No meu caso, a testa (especificamente entre os olhos) estava franzindo demais e me incomodando. Tô me aceitando melhor sem a testa tão franzida. O botox me ajudou e talvez seja hora de retocar. Aliás, esse seu defeito: ter que refazer, pois o efeito passa. Tenho preguiça e, ao mesmo tempo, penso no gasto financeiro. Comecei aos 47… Tenho que fazer isso 2 vezes por ano durante quantos anos? Sei lá, me parece burro. Se comecei, tenho que continuar? Refazer o botox ou não refazer, eis a questão?
Digressão chata. Fato é que não cheguei aos 50 sem botox nem sem hormônio. Os Wechseljahren chegaram me dando voadora no peito. O nome em alemão faz total sentido. Anos de mudança. Entre a fase reprodutiva e a não reprodutiva. Eu ainda não estou na menopausa, mas me encaminho pra ela. A peri, o período anterior, a mudança. E isso me atropelou de uma forma que eu um dia gritei (internamente e pra mim mesma!): chega! Usa o gel e a pílula que a ginecologista indicou. Para de ser teimosa. Não dá mais.
Tentei não usar nada. Tentei medicação natural, não hormonal. Meditação. Achsamkeit. Exercícios. Alimentação saudável. A tpm em vez de uma agora durava quatro semanas. O ciclo? Irregular. Mês não e mês duas vezes. A cereja do bolo, a gota que matou minha teimosia em não querer usar hormônios foi o sono. Acordar imersa em uma poça de suor, faça frio e faça calor, com a sensação de estar a mais de 50 graus, fritando de dentro pra fora! Todas as noites. Muitas vezes por noite. Minha irritação e minhas olheiras crescendo. Minha secura me fazendo recorrer a lubrificante.
Terapia hormonal e foda-se! Não dá mais pra viver assim. Agora toda noite tem gel no braço e pílula pra dentro. Meu humor melhorou. Estou conseguindo ser mais produtiva. Melhor pra libido do que shot de tequila. Não tenho mais vontade diária de matar meu companheiro. Estou conseguindo ser eu. Sério, cheguei ao ponto de não me reconhecer! Tenebrosa essa chegada dos anos de mudança. Tenebrosa! Não recomendo e, se pudesse escolher, não passaria por isso. Risos.
Minha pureza juvenil conseguiu me manter sem hormônios até aqui. E, de repente, a gente descobre que perimenopausa não é uma nova trend. É o que acontece quando gerações inteiras de mulheres atingem uma transição de vida pra qual nunca nos preparamos e nunca fomos educadas sobre. Fomos mantidas no escuro e, agora, está acontecendo com a nossa geração. Até aqui, eu nunca tinha sentido desespero e vontade de chorar ao mesmo tempo. Acordar fritando aos 50 graus várias vezes por noite mudou a minha perspectiva sobre muita coisa, inclusive sobre o ser mulher.
Nunca imaginei que as famosas ondas de calor fossem como caminhar nas brasas do inferno em meio às chamas sem conseguir respirar. Nunca imaginei, até acordar de madrugada numa piscina de suor, fritando por dentro com a sensação de estar mais de 50 graus, acompanhado de arritmia e falta de ar. Essas mudanças climáticas, esse tal climatério é a pior loucura hormonal da vida de uma mulher. É uma segunda puberdade, só que agora a gente tem que ser adulta funcional. Anos de mudança, de transformação.
Estava dormindo tão mal e ficando tão alterada emocionalemente que cheguei ao se aumentar risco de infarto, trombose e AVC, foda-se! A saúde mental é importante, e ela estava indo de arrasta. Foi assim que uma mulher adepta convicta de métodos não hormonais, que passou a vida sexual inteirinha sem hormônios, começou a usar um gel e a engolir uma pílula. Precisava voltar a viver e a ter noites de sono dormidas. Com a libido aparecendo de novo, chegou a hora de testar coisas novas.
Tô tendo que me adaptar a esse novo corpo, diferente do anterior. Não responde da mesma forma, nem dieta, nem exercícios, nem recuperação de lesão ou cirurgia. Nem desejo. Cheguei na idade em que ser bonita não interessava e ser interessante sim. Eu era as duas coisas. Ou me achava. Estou bem comigo mesma pra alguém que há pouco não se reconhecia no próprio corpo, nem na própria mente. Me expressava criativamente escrevendo putaria e escolhendo papeis entre nós. Ontem, por exemplo, fui submissa, dei, chupei, engoli.
ATM porque ele queria, por que não? Chamo de complementaridade. Ele me chupa até eu me tremer inteira e gozar na boca dele. Eu me deixo ser penetrada e engulo. Gente adulta saudável que gosta de trepar. Expressão de sexualidades saudáveis quando todos consentem e gozam. Ou não? No fim, compramos algemas. Eu queria ser vendada e algemada, comida. Estava gostando dessa nova fase, de experimentar as coisas, por que não?
Como você se expressa criativamente? Risos. De repente, sexo é parecido com transformar as inquietudes em respostas que só você pode dar? Sei lá. Tudo ainda é meio novo e esquisito. Tem sempre um tubo de lubrificante na gaveta da mesa de cabeceira, pois nunca se sabe quando virá a secura mesmo cheia de tesão. Tudo muito estranho e esquisito.
Estou menos desconhecida pra mim mesma. Tenho a sensação que estou me tornando a pessoa que sempre deveria ter sido - sexualmente, inclusive. Não estou velha; sou um clássico que nunca sai de moda. Sou no máximo vintage, uma edição limitada. A reposição hormonal me salvou do inferno! Quase fechei cinco décadas sem… Não deu. Depois de acordar nas brasas molhadas do inferno várias vezes por noite, as ervas naturais e os chazinhos que se fodam. Eu tomaria até uma combinação de tarjas-preta se fossem me livrar de calores e humores. Risos.
Recuperei muito da vontade, da luxúria… mas continuo esquecendo as coisas, Porém.