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 The boundaries which divide Life from Death are at best shadowy and vague.






Juro. Quando aquele alecrim dourado das trevas apareceu querendo me adicionar na rede social eu fiquei incrédula. Desacreditada da foto, cliquei para ver o perfil. Aparentemente, tem um filho. Eu, tendo convivido de perto com o pai, tenho pena dessa criança. Não sei se é casado. Se for, genuinamente sinto pena dessa mulher. Ou homem. Vai saber. Ninguém é obrigado a estar casado com a mãe do próprio filho. Não é porque procriou que precisa casar. 


Digressões para dizer que fiquei incrédula. Imediatamente, o bloqueei. Mal cortado pela raiz. Fim.


Juro. O cara me roubou tanta coisa, ideias, contatos, palavras, oxigênio. Me usou como escudo. Me colocou como bode expiatório e responsável por erros dele próprio. Me manipulou e a tantos outros… apenas para ficarmos uns contra os outros? Me traiu com mulheres e homens. O maravilhoso ia aos meus shows e levava amigos, elogiava. Depois, em casa, eu estava muito gorda praquilo ou a minha parceira de palco dançava muito melhor do que eu. Sempre algo que me inferiorizasse, me fizesse questionar o meu lugar e o que eu deveria estar fazendo.


Saí daqueles anos destruída psicologicamente e zerada financeiramente. Além de difamada nos meios nos quais circulávamos. O clichê do que um querido do bem espiritualizado faz. Saí traumatizada com o mau caratismo alheio. A audácia aparecer agora querendo me adicionar em perfil privado! Faz tanto tempo, que eu já estou casada há  quase uma década, sendo que passei anos e anos solteira antes. A pessoa devia ter noção, mas gente mau caráter geralmente não sabe o que é isso. Não vou chamar de narcisista, porque nunca vi um laudo, porém… Devia ter noção (mas não tem). 


Eu estava lendo Tales of Horror. Assim, aleatoriamente. Tales of Horror. E decidi procurar contos de terror em português online. De repente, haveria algum bom. Me deparei com o quê ao ir checar uma notificação no celular? O sininho ali indicando um zumbi pedindo para ser adicionado entre os meus seguidores. Me deu enjoo. Indignação. Nojo. Eca, sabe? Como assim essa assombração sai do inferno para vir me incomodar online? Quer me seguir para quê? Vá de retro!... Risos. Block!


Os monstros mais assustadores são aqueles que se escondem? Ficção por ficção, nada é mais conto de terror do que a realidade, n'est-ce pas? Nada mais monstruoso do que aquele fulano gente boa, meio comum e amigo de todo mundo. Cuja fala mansa, calma, esconde o desgraçado que destrói, física ou psicologicamente, os outros. No sigilo, claro. Atrás das cortinas, aquele labrador fofinho virava um pitbull espumando, latindo em voz baixa. Para ninguém ouvir. Shiiii!


(Minha escrita vai se transformando? Ou adapto a escrita às vozes na minha cabeça?)


A alma sebosa, em público, é um gentleman, gentil com todas as pessoas. Um clássico! Ele nunca me bateu, porém, um dia, em mais uma de nossas incontáveis brigas, resolveu me segurar pelo pescoço. Reagi instintivamente, o chutei para longe, peguei uma faca grande. Se você chegar perto de mim, eu te mato! Enlouqueci. Virei um bicho. No momento que ele segurou no meu pescoço… admito que enlouqueci, surtei. Ao sair, quebrei algumas coisas na casa. Ela é louca! Ela é bipolar! Ela é border! Blablabla.


Engraçado como nunca ninguém pensa algo simples como o fulano tentou agredi-la, ela reagiu e surtou, estava sob forte emoção, com ódio e medo. A narrativa previsível é sempre que o coitadinho foi vítima da maluca histérica descontrolada que o ameaçou de morte. Risos. Vejam o meu caso: como uma mulher que nunca nem levanta a voz enlouqueceu assim, a ponto de reagir com faca na mão quebrando tudo? Como ela enlouqueceu, caso tenha mesmo enlouquecido? Não é um pouco estranho? Ninguém pergunta nada, enquanto todos constroem teorias.


Eu tinha que enrabar o transformer que sim, comprou um dildo só para ser enrabado! O alecrim colocava minhas calcinhas e pedia para ser enrabado. Nossa como eu odiava aquilo! Zero tesão. Outra coisa que ele gostava era que pisasse nas bolas dele, mas eu nunca soube disso, até que vi troca de emails dele com homem, combinando outra foda. Confrontado, disse que tinha curiosidade. Risos nervosos. Pisa você nas minhas bolas. Me come. Eu tinha nojo! Nojo! E, ainda assim, fazia. Ele, ainda assim, saía com outras pessoas. 


No decorrer da história toda, eu ia murchando, desaparecendo. Lembra de como ele era orgulhoso, convidava todo mundo para ir aos meus shows. Divulgava. Falava bem. Em público, o apoiador. Em privado, basta dizer que, no final, parei de me apresentar? Afinal, você não devia usar essa roupa, te deixa gorda, ou você não devia dançar com fulana, ela é mais bonita, ou a variação ela dança melhor. Desapareci e quase sumi nesse processo, no meio disso tudo.


Pouca gente é, nos bastidores, o que é no palco - e isso não necessariamente é bom ou ruim. No caso do filhote de cruz credo, as máscaras mais pareciam personalidade múltipla. 


E era eu que me questionava, saía do eixo, enlouquecia. Coincidência?


Quer saber o mais chocante? Não sinto pena dessa minha versão do passado que passou por algumas coisas que só deus duvida! Não tenho dó, nem peninha, de mulher que se envolve com homem sabidamente agressor de outras mulheres. Com homem nervosinho, agressivo. Elas escolhem se envolver com eles. Eu, por exemplo, por que achei que comigo ele não seria doido de… (fazer tanta coisa das que fez)... ? Já havia tido umas ações, na mais positiva das hipóteses, problemáticas no passado. Red Flags gritando e piscando em neon! Eu? Entre a trouxa, a ignorante, a prepotente e a inocente. Risos.


Se envolver é uma escolha. Se admitirmos que não, que é tudo culpa da socialização… que não temos agência… então precisamos de tutela, pois incapazes? Infantilização de mulheres adultas. Não tenho dó de quem se envolve com meliante sabidamente agressor. Eu não sei explicar racionalmente essa síndrome de pepeka salvadora da qual também já fui (graças a deus no passado!) acometida. Eu aprendi, sim, com aquilo tudo. Entretanto, certas coisas foram desnecessárias.


Crises de ansiedade e gástricas não precisavam ter acontecido. Não precisavam ter sido fabricadas com tanto afinco por gente que era boazinha com todo mundo. Alguma de nós merece isso? Usei meu livre-arbítrio e escolhi estar com ele, shame on me. Isso significa que eu mereço? Meus sentimentos são dúbios. Depois de tanto tempo e tantos estudos e aprendizados… essa dubiedade entre o aquário e o peixes que há em mim ainda grita alto e me deixa confusa.

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