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 Só o cinismo redime um casamento.

É preciso muito cinismo para que um casal chegue às bodas de prata.







Eu nunca tive medo de morrer. Até o dia em que te conheci e você passou a fazer parte da minha vida. Eu disse isso pra ele na despedida. Não sei se ele lembrou, mas eu havia dito isso pra ele anos antes, ao ser levada pro centro cirúrgico. A gente estava escrevendo uma história linda de parceria e putaria. Uma história única de dois amigos que se amavam e tinham muito tesão um no outro. Eu confiava nele, e não estava errada em confiar. É possível se relacionar sem confiança?


Passei por uma cirurgia de emergência na nossa eurotrip. A proposta da viagem em casal era festar e visitar casas sex positive, digamos assim. Risos. Sim, éramos desses. Chegamos no aeroporto, pegamos o trem pro centro e eu comecei a sentir muita dor. Muita! Deixamos as coisas no hotel e fomos pra emergência do hospital mais próximo. Uma cirurgia inesperada mudou os rumos da viagem e, ao final, não visitamos nenhuma casa adulta. Fiquei os primeiros dias no hospital. Os próximos num flat que ele alugou. Ele passou os vinte e um dias do meu lado, cuidando de mim sem reclamar.


Voltamos e virou uma história pra contar. Havíamos planejado uma semana em cada país, visitando museus e casas de diversão liberais. Terminei tomando oxicodona pela primeira vez. Não recomendo. Porém, uma apendicite é imprevisível e acontece quando tem que acontecer. Um ano depois, tentamos refazer a viagem que não fizemos e fomos barrados na porta da kitkat na nossa primeira noite. Entendi como um sinal e resolvi só curtir a viagem, sem expectativas ou planejamentos na área putanhesca. 


Nessa mesma viagem, num fim de dia lindo de sol, subimos no terraço do hotel, onde havia um bar. Por que não um Aperol no fim da tarde? Um casal se aproximou e perguntou se podia sentar na nossa mesa. Falaram em espanhol? Não lembro. Mas sim, claro. É normal pessoas desconhecidas dividirem mesas. Começamos a conversar em inglês e virou uma boa prosa que terminou no quarto deles. Ao final, dividimos os cônjuges. Meu primeiro pau espanhol aconteceu assim, de maneira despretensiosa, enquanto eu assistia meu namorado enrabar seu primeiro cu alemão. 


Essa viagem foi uma delícia! Sem imprevistos médicos e com muitas surpresas na área divertida da vida de um casal de amigos livre. Continuamos vivendo e nos divertindo felizes, juntos, por muitos anos e muitas viagens. Uma década de aventura. Eu tinha certeza que havia encontrado o amor da minha vida, a minha alma gêmea, a minha pessoa. Era um relacionamento muito tranquilo, sem brigas, sem agressões, sem provocações. Com muita conversa, acolhimento, tesão. Um belo dia, deixou de ser.


Eu nunca tive medo de morrer. Até o dia em que te conheci e você passou a fazer parte da minha vida. Eu disse isso a ele antes de dizermos adeus. Nosso relacionamento acabou assim após 10 anos de muita parceria. Quando a putaria deixou de ser nossa, não deu mais pra continuar. Ele viajou e me traiu numa coisa meio Brokeback Mountain. Como descobri? Da forma mais ridícula possível. Meu notebook foi pra oficina e precisei usar o dele. Fui logar meu gmail e o dele estava logado. Quem não olharia?


Eu sabia que ele tinha ido acampar com o amigo. Só não imaginava… Pois é. Numa das noites, ambos fuderam uma menina que apareceu no camping. Ménage com menção a lamber sua porra escorrendo dela e outras pornografias. Não sei nomear o que senti. Perdi o medo de morrer ali. De certa forma, aqueles emails, aquelas imagens em anexo… tudo aquilo matou quem eu era. Fiquei ali parada, imóvel olhando pro nada. Eventualmente, ele chegou em casa e veio falar comigo, perguntar o que aconteceu, porque eu estava daquele jeito, catatônica, distante.


Eu olhava pra cara dele e não tinha vontade nem de falar. Eu confiava nele, e não estava errada em confiar. Até que estive. Aquele rosto indecente, que outrora me foi atraente. Eu não conseguia mais olhar na cara dele! Não me dava nem nojo, nem raiva. Era um sentimento de vazio, de decepção. Uma tristeza que não chegava nem a doer. Eu, definitivamente, não tinha o cinismo necessário pra continuarmos juntos após a deslealdade. É possível ter um relacionamento saudável com alguém em quem a gente não confia mais?


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