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Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho…
Não tenho exatamente vergonha. Não sei explicar como me sinto, mas não passa pela vergonha. Dói... ao mesmo tempo, não sinto nada. Preste atenção, querida... de cada amor tu herdarás só o cinismo... Transtornada. Não parece, mas estou. Dilacerada por dentro. Os olhos dele... Que medo! Por qual motivo ele estava com tanto ódio de mim? Quase desmaiei. Fechei os olhos e por breves milissegundos me senti desligando. Experiência horrível, não recomendo. Risos nervosos.
Eu devia ter entendido aquelas frases como as red flags que elas eram, mas fui incapaz. Você não devia dançar com ela soava como uma crítica normal. Eu ia me encolhendo e dançando conforme a música. Pisando em ovos. Em casa, pisava sempre em ponta – silenciosa, leve, imperceptível. Assim, tentava não irritá-lo. Às vezes, não dava. Ele era grosso – sempre com voz baixa, dizia coisas motivacionais como burra, você não acha que engordou, ela dança melhor… Ia me derrubando sem que eu percebesse.
Paulatinamente, fui parando de dançar. Não fazia mais apresentações públicas, nem mesmo em teatros ou onde fossem. Fui aos poucos perdendo a vontade e a coragem de me apresentar em público. Depois, fui também parando de fazer aulas. As bailarinas estariam lá, não estariam? Eu fazia aula com elas, elas melhoravam e eu não... daí parei com as aulas. Qual o propósito? Não era verdade, mas era o que eu acreditava, na época, a partir das críticas construtivas de quem gostava de mim.
Parando de dançar, ficava mais ansiosa enquanto comia mais e me movimentava menos. Engordei. Primeiro cinco. Depois dez. Depois quinze. Quilos. Ele gostava de me levar para comer. Comprava meus chocolates e vinhos preferidos. Comia meu cu depois que acabava a garrafa e dizia que eu estava gorda. Parece uma leitoa de natal! Nojenta. Eu me sentia péssima e não conseguia sair daquilo, me culpava por estar gorda, tinha vergonha do meu próprio corpo, me escondia.
No auge da depressão, eu só dançava sozinha no escritório. Usava fones de ouvido para que a música não chamasse sua atenção ou o incomodasse. Quando ele não estava em casa, eu (estava tão condicionada que) agia da mesma forma, mas adicionava vodka na equação. Anestesia e entorpecimento, sabe como é? Estava deprê e não sabia... ou fechava os olhos para minha própria condição de propósito? Não queria encarar a realidade. Não é fácil encarar a realidade.
Deixei de me apresentar e de ir às aulas. Deixei de ir às apresentações alheias. Sem perceber, fui deixando de gostar dela, da dança. Em casa, o balé era diário. Me sentia pisando em ovos ao falar, agir, me expressar. Até minha respiração precisava ser mais leve e silenciosa. Sei lá… não queria incomodá-lo, nem irritá-lo, nem provocá-lo. Não dançava nem ia às aulas de dança mais… porém, era a dança que me salvava no escuro da noite e do escritório ou quando ele dormia fora de casa. Mesmo quando ele não estava por perto, eu continuava na ponta dos pés... sentia necessidade disso e nem percebi como começou. Aos poucos e imperceptivelmente, dançar conforme a música foi adquirindo outro significado, um tanto mais triste, sombrio.
Parar de gostar da dança deveria ter sido o gatilho que soasse o sinal vermelho para mim e para todos ao meu redor. E era triste como havia cada vez menos gente ao redor. Fui me afastando, parando de dançar e de ir às aulas, aos poucos tirando a dança e as amigas do meu convívio e, ao mesmo tempo, fui ficando mais tempo trancada em casa, cedendo ao sedentarismo. Não vi os quilos chegando, tal qual não vi a depressão chegando. Eu vivia cada vez mais reclusa, num isolamento social sem pandemia.
Saía pouco, quase nada. Gostava de ir à livraria, embora evitasse ir sozinha. Foi-se o tempo em que eu circulava destemidamente sozinha por aí! Morria de medo da violência urbana e não enxergava a violência próxima. Gente anda sendo morta e estuprada aqui ao lado de casa era a minha justificativa para não fazer mais nada sozinha. Passei a evitar andar sozinha até no shopping. Que involução! Da liberdade ao controle, sem enxergar o próximo passo desse caminho que eu estava trilhando.
Precisei quase desmaiar para perceber? Ou já percebia e tentava fingir para mim mesma que não? Todo mundo fica vulnerável às vezes. Não tem problema. Não recomendo a experiência horrível de quase desmaiar depois de um soco. Um soco! Um soco covarde de uma pessoa que era calma, gentil e dizia me amar. O surreal é que eu me culpei e dei razão a quem disse que eu reagi mal, que eu era louca. Esse é o poder oculto do tal bicho-papão chamado patriarcado que, uma vez visto, não pode ser desvisto.
Eu não consigo desver. Você consegue? Eu me culpei por reagir sob forte estresse e trauma. Eu me culpei! Ah, se eu pudesse voltar no tempo para ter uma conversa honesta comigo! Deus abençoe as terapeutas e as amigas, amém! Cheers! Aprendi, entendi, parei de negar para mim mesma. Encarar o que antes a gente escondia até de nós mesmos muda tudo! A culpa…ela não é minha. Minhas reações ao trauma, à violência, eram legítimas.
No início, doeu assumir para mim mesma que fui vítima de muitos tipos de violências. Tantos que prefiro não detalhar. Mas depois da dor, veio o entendimento das minhas vulnerabilidades que deram abertura para que eu caísse naquela armadilha. Acredito que hoje seria quase impossível que eu caísse numa arapuca daquelas… Seria? A mudança também vem de enfrentar, encarar. Eu mudei. Me fechei.
Uma coisa é certa. Ele foi o último homem a me ver sob todos os aspectos. Os que vieram depois… tiveram acesso apenas a um pedaço bem pequeno. Algo se transformou de forma irreversível depois de ver aqueles olhos tomados pelo ódio. Um soco e um não retorno…
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