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Matamos o tempo, o tempo nos enterra.
A vítima perfeita. Eu não era. E talvez por isso nunca me enxergaram murchando, morrendo. Não aconteceu de um dia para o outro. Foi um processo. Ninguém quis enxergar. Lasciva, eu não era a vítima perfeita. As máscaras que adotamos para sobrevivermos ao desamparo nos trazem benefícios ou nos aprisionam? Bicho do mato quieto, insensível. Devoradora de homens. A máscara da mulher forte, distante, me aprisionava e impedia que os outros vissem. Impedia que eu enxergasse, agisse, acordasse.
Nos nossos últimos meses juntos, eu acordava todas as manhãs pedindo por sinais do que fazer em relação a ele e a mim mesma. Apesar das marcas, precisava de um sinal, uma ajuda divina. Por algum tempo, me perguntei se o modo como as coisas se iniciaram entre nós tinha determinado o tipo de relação que tínhamos. A gente se conheceu numa festa e transamos naquela noite, oras. Não tem nada demais nisso. Tem? A resposta estava estampada no espelho.
Olhar e não se reconhecer. Espelho, espelho meu… existe alguém mais trouxa do que eu? Olhar e se culpar. É claro que ele está certo ao ter ciúmes, minha vida pregressa me condena. Mulher para casar? Espelho, espelho meu… o que ele viu em mim? Por que me assumiu, quis morar comigo? Ele está certo, ninguém além dele vai me querer. Era melhor que eu me desse ao respeito e não saísse sozinha com as amigas nem fizesse aquelas apresentações de dança. O que os amigos e conhecidos dele iam pensar?
No meu último dia naquela casa, ele encostou a mão em mim pela primeira e última vez. Ou melhor, tentou. Me deu um tapa na cara. Puta! Tentou me segurar pelo pescoço. Mas eu caí da janela. E, antes disso, eu já havia sumido. Já havia ficado tão pequena... a gente vai sumindo e apagando aos pouquinhos, sem perceber. Era por ele. Era pelo nosso relacionamento. Era para que não pensassem mal. Eu precisava mudar, ele não.
A minha ex amiga tentou me alertar. Previsivelmente, não a ouvi. É claro que não a ouvi. Louca. Histérica. Está difamando o cara de graça? Tá assim porque levou um fora, só pode – quis mais do que ser só a piranha da vez e se deu mal. Eu sou diferente. Não sou qualquer uma e ele me trata diferente. A gente nunca ouve, né. A gente nunca é a primeira vítima de um narcisista, nem de um estuprador. E, dificilmente, será a última. A gente nunca ouve as anteriores. A gente é só a louca, a histérica, a desequilibrada. A ex que quer voltar. Sempre o mesmo roteiro clicherizado.
A gente nunca é a primeira vítima de um narcisista, nem de um estuprador. E, dificilmente, será a última. A gente é só a louca, a histérica, a desequilibrada. A gente é só a ex que quer voltar. Sempre o mesmo roteiro clicherizado. Além de louca, eu era puta. Vagabunda que já deu para vários, ainda que não fossem tantos assim. Menos de duas dezenas, entre homens e mulheres. Por isso ele não gostava que eu saísse sozinha com as amigas, sentia-se inseguro. Também eram putas, e eu poderia me envolver com elas. Ele estava certo.
Demorei para codificar que havia sido estuprada e para aceitar que vivi um relacionamento abusivo. E a gente algum dia entende? Minutos antes de cair da janela, percebi que já fazia tempo que eu não conversava com amigos. Ainda tinha amigos? Isolamento social antes de virar modinha. Aos pouquinhos, fui deixando de fazer as coisas que me faziam ser eu. Fui sendo quem ele queria até na cama. Puta! Lembro até hoje como foi a primeira vez que ele me enrabou. Sua puta! Tá me negando essa bunda? Quantos já meteram nessa bunda, hein puta?! Ele meteu antes de dar tempo de eu responder. Nenhum. Aquela foi a primeira vez. A primeira que chorei enquanto fazia sexo também.
Demorei para codificar tudo que havia acontecido. Vítima? Era meu namorado. Era normal que pudesse me comer. Ou não era? Encher meu cuzinho de porra era só uma das coisas que ele gostava de fazer, então era natural que fizesse. Ou não era? Honestamente, já não sei mais. Em outros tempos, em outras épocas, isso jamais aconteceria. Eu diria não se não quisesse… mas não se pode dizer não ao cara que tem a coragem de assumir uma puta. Quem iria me querer?
Relacionamento abusivo sim. Mas estuprada? Estuprada, não. Isso é forte demais para admitir. Forte demais para desabafar. É ofensivo dizer que o cara fez o que não devia. Era direito dele. Por que falar sobre isso, sobre esses assuntos, é tão ofensivo para você? Se você não é um desses caras... se você não é um agressor, um abusador… por que se ofender?
A conversa não é sobre você. Ou talvez seja. Sobre você ficar mais ofendido com crônicas de ficção baseadas em histórias reais do que com as estatísticas de violência contra a mulher. Sobre você gastar sua energia rebatendo uma ofensa que não é sua... e não gastá-la rebatendo seus brothers que foram violentos.
Eu fui chamada de puta tantas vezes que internalizei a putidão. Puta e louca. E se alguém estiver lendo isso tudo e me chamando de louca ou promíscua, foda-se! Quem liga? Por que vocês ligam? É tudo ficção. Eu inventei. Qual o problema? Lewis Carroll pode imaginar coelhos e rainhas de copas guilhotinando as pessoas.... a série mais vista da história pode ter dragões e white walkers… Por que eu não posso inventar uma historinha mentirosa qualquer que aconteceu comigo?
Nada faz sentido depois que eu caí da janela. Ou tudo faz. Durante grande parte da minha vida, eu não fazia sentido. Alguém faz? Sei que eu, de extremo a extremo, não fazia. Até aquele fatídico dia, naquela festa onde o conheci. Não que ali eu tivesse passado a fazer algum sentido. Era o estado de transição. Logo antes de congelar. O vapor liquefeito. Ainda pegaria fogo para, em seguida, solidificar. Hoje, sei identificar armadilhas e narcisos. Esse conhecimento imuniza? Olha o que o cara fez. Espelho, espelho meu, quem me tornei?
Se você me conheceu há dez anos, ou se não me vê há 15… Você não me conhece, não sabe quem sou. Você conheceu uma versão minha que não existe. A eu atual não existia anteriormente. Não existia há 5 anos. A eu atual começou a nascer naquela noite fria de seca da capital. Começou a nascer naquelas taças de vinho e naqueles shots de tequila. Mais uma dose, é claro que eu tô afim… a noite nunca tem fim… Por que que a gente é assim?
Gato, me deixando bebinha, me deixando fácil. Me esquentando no frio. Educado, sedutor, me querendo. No fim daquela noite, me comendo. Puta! Foi avassalador. Sempre desprezei as coisas mornas, as coisas que não provocam ódio nem paixão, as coisas definidas como mais ou menos, um filme mais ou menos, um livro mais ou menos. Tudo perda de tempo. Viver tem que ser perturbador, é preciso que nossos anjos e demônios sejam despertados, e com eles sua raiva, seu orgulho, seu asco, sua adoração ou seu desprezo. O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia. Era o que eu achava. Era meu engano. E era, de certa forma, o que me manteve presa.
Eu podia ir embora, mas não fui. Nenhum outro cara ia me querer. Era um milagre que ele me quisesse depois de me comer na noite em que nos conhecemos. Puta! Quem quer uma puta? Ouvi essas palavras tantas vezes. Fui ficando. Cedendo. Não percebia nem quem eu era. Antes de ser estuprada, nunca prestei atenção ao fato de que era uma mulher. Eu estava ocupada sendo feliz, festando, vivendo.
Uma mulher alienada de sua condição. Não gosto de julgar ninguém antes de conhecer os fatos que envolvem a vida de uma determinada pessoa. Então não me julguem pelo que leem aqui. Aconteceu tanta coisa antes de eu cair da janela! Essas coisas foram me moldando, me esvaziando, me transformando. Não julguem. Apenas analisem todas as coisas com olhar de misericórdia e amor. Ou pena, que é o que eu teria de mim.
Novinha que se fantasiou de entendida, intocável. Devoradora de homens. A máscara da mulher forte, distante, me aprisionava e impedia que os outros vissem. Impedia que eu enxergasse, agisse, acordasse. Os homens que eu tive não foram nada - e foram tudo! Eu gostava muito de sexo. Ou melhor: queria que acreditassem que eu gostava. E isso… isso pesou contra mim.
Graças a deus, não tive filhas. Não transmiti a nenhuma pobre coitada o legado da minha miséria. Da nossa.
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