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Hoje, não tenho frases.
Põe Paint it Black no som e aprecie.
Não seja assim, esse tipo de pessoa ridícula, desnecessária. Você está mesmo me interrompendo e me perguntando tanto tempo depois? Você está sendo desnecessária dessa forma? Tem certeza que quer saber o que está me perguntando?
Pausa dramática para minha cara de incredulidade e olhar de nojinho antes de dizer sonsa!
Sabe em que momento eu deixei de ser sua amiga? De te considerar qualquer coisa? De só te encontrar em turma, quando ia encontrar as meninas? Depois daquele dia, na casa do fulano. Lembra? Você veio me acordar. Me chamar para ir embora. Cutucando meu ombro. E dando lição de moral, como sempre. Vamos, você não precisa disso… Lembra? Eu lembro.
Em algum momento, durante seu sermão, você considerou que eu pudesse não estar bem? Olhou para mim? Eu tinha bebido muito. Procurei um lugar para deitar. Chapar até melhorar para voltar para o churrasco. Acordei com o fulano em cima de mim. O pau dele encostado na entradinha da minha buceta. Ele passando a mão no meu corpo todo antes de enfiar. Me chamando de gostosa ao pé do ouvido enquanto enfiava até o fundo.
Ele abaixou meu biquini comigo chapada! E você me chama para ir embora dando sermão? E tem coragem de estar agora perguntando o que aconteceu para eu ficar distante e não confiar em você? É sério isso? Naquele dia, eu estava muito anestesiada para reagir. Naquele dia, perdi algumas amizades, incluindo a sua que, pensando bem, nunca tive. Já pensou por que me afastei daquela turma toda? Por quê? A puta que foi dar para o noivo da amiga tá bom para você? Foi assim que você me tratou, lembra? Foi isso que seu sermão me disse. Foi isso que as más línguas disseram.
Eu estava chapada. Apagada. Acordei com a minha queridíssima amiga moralmente superior me falando que eu não precisava disso. Aquele ar de juíza. Eu tentando entender o que tinha acontecido. Só muitos anos depois entendi a violência daquilo tudo. Eu estava dormindo, bêbada. Na cama do noivo da minha amiga. De biquíni e saia, afinal era um churrasco. Deitada de bruços. Se bobear, devia estar até roncando. Risos.
Acordei com o cara de pau duro na entradinha da minha buceta. Meu biquini tinha sido abaixado. Acordei, mencionei falar o nome dele, ia pedir para ele colocar camisinha. Ele só me disse xixixiiiiiiiiiii ao pé do ouvido e enfiou. Quando cansou, meteu no rabo até gozar. Muito bom meter nesse cuzinho gostoso! é o que ele me dizia. E saiu. Tomou uma chuveirada e voltou para o churrasco. Para os amigos. Para a piscina. Eu fiquei apagada lá na cama, no quarto dele. Acordei com você e sua deselegância forçada.
Eu nunca contei isso para ninguém. Nunca falei sobre, que dirá pensar em denunciar. Você denunciaria? Oras. Eu havia feito um ménage com o casal semanas antes, naquele motel que tem uma piscina no quarto. É claro que, com inveja da minha amiga, fui atrás do cara e pedi para ele gozar no meu cuzinho gostoso. Quem acreditaria em mim? Se não costumam acreditar na vítima perfeita, por que acreditariam em mim? Rodada, bêbada, drogada... deu o cu, se arrependeu e agora taí, denunciando estupro. Toma vergonha na cara, sua puta!
Eu só lembrei (soube?) que tinha sido abusada (estuprada?) anos depois. O que você esconde de si mesma? Qual foi a coisa mais bizonha que você não contou para si mesma? Moço de sobrenome importante no cenário político, da última vez em que trepamos eu fui apenas o buraco disponível. Acordei com a calcinha do biquíni abaixada, quase na altura do joelho. Pernas mais afastadas do que eu lembrava ao deitar para dormir. E um pau duro encostado na entrada da minha buceta.
Colocou a cabecinha e só. Passou algum tempinho beijando meu pescoço, passando as mãos pelo meu corpo. Você é muito gostosa! Disse isso suavemente, em voz baixa perto do meu ouvido... ao mesmo tempo em que enfiava o pau inteiro. Só tive tempo de respirar e deixar acontecer. Daquele jeito. No pelo. Sem que eu tivesse podido dizer não. O resultado de beber tantas caipirinhas e algumas tequilas foi esse. Acordei com a calcinha do biquíni abaixada e um pau duro na entrada da minha buceta.
Relaxa e deixa ele gozar? E se ele gozar dentro? Se vai me comer assim, põe camisinha pelo menos seu filho da puta. Pára, por favor. Milhões de coisas passavam pela minha cabeça enquanto ele me comia. Eu não tomava pílula e me forçava a usar sempre camisinha por isso. Tentei falar o nome do moço... ele enfiou bem no fundo. Diz gostosa… Eu nunca disse, ele me comeu como quis.
Será que ele se lembra disso? Será que, com as discussões que acontecem hoje, ele sabe que eu não tinha condições de dar consentimento? Ou continua afirmando que eu sou a puta que deu em cima dele? Dar em cima como, se eu estava dormindo? A ironia é que foi a noiva dele, minha amiga, que me levou para deitar naquele quarto. Eu estava mais bêbada que um gambá e ela me levou para deitar na cama do fulano. Ali estaria segura. Ninguém entra no quarto dele.
Ele entrou. Eu não consegui gritar. Quis, mas a voz não saiu. Quantas vezes você já gritou em silêncio? Eu não consegui gritar e me culpei por isso durante muito tempo. Me questionei. Até entender a violência e aceitar que, de canalhas, o mundo está cheio. Abarrotado. E, lamentavelmente, muitas vezes o fogo amigo, a canalhice, vem de uma semelhante. De outra mulher que, justamente por ser mulher, deveria saber e entender que estará sujeita àquilo. Triste. Lamentável. Coisa infeliz da existência.
Tenho pena. Ao mesmo tempo, quero distância.