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She wins who calls herself beautiful and challenges the world to change to truly see her.
Eu tinha 45 anos quando soube. Não imaginei que mexeria tanto comigo receber a notícia da morte dela. Meu primeiro crush não-hetero, digamos assim. Mulher linda, magnética. Personalidade forte. Carismática. Presença. O carro rosa da asa norte. Ou melhor, o fiesta rosa simpático da asa norte. Ela era inesquecível. Derretia corações quando tocava sua versão de Geração Coca-Cola, meio jazzy cozy, voz e violão. Molhava calcinhas e cuecas.
Eu soube da partida precoce pelas redes sociais. Fiquei triste, desacreditada da justiça divina. Tanta gente escrota no mundo, precisava levar justo ela cedo assim? Havia perdido o contato com aquela deusa cuja presença era um tsunami. Linda! Alegre. Sorridente. E, de repente, se foi assim, sem mais nem menos, antes dos 50? Cinco meses entre diagnóstico e partida. Cinco fucking meses! Que doença maldita. Que nostalgia (que bateu com a notícia).
Tínhamos uns 19, talvez 20 anos quando nos pegamos forte pela primeira vez no banheiro daquela boate da moda, após cheirarmos. Sim, é isso mesmo que você entendeu. Entramos juntas na cabine pra cheirar e fizemos uma pegaçãozinha ali dentro. Mão naquilo, aquilo na mão, boca no peito, boca na boca. Em noites de maior ousadia, boca naquilo ali mesmo, naquela cabine de banheiro de boate. Da época em que tive minhas primeiras experiências lésbicas. Das primeiras experiências com drogas. Das primeiras com homens. E nada disso está relacionado, ao mesmo tempo em que está.
Ocasionalmente, alguma orquídea fantasma cruza nosso caminho. Ela foi daquelas raridades. Daquelas pouquíssimas pessoas que me deixam nervosa, sem palavras. Meu coração disparava quando encontrava com ela! Eu parecia uma menina bobinha que não conseguia nem falar com ela direito. Saía de perto e fingia indiferença, mesmo morrendo de vontade de dar um beijão de língua naquela boca! Casualmente, dava mais do que apenas um beijão naquela boca linda, em formato de coração.
As sextas à noite eu me pegava com ela no banheiro da boate após cheirarmos uma carreira. Voltava pra pista e tomava um shot com algum cara irrelevante qualquer. Quase de manhã, voltávamos pra casa de carona com o mesmo amigo e seu namorado (sim, um casal gay). As semanas passavam assim. Compromisso fixo de sextas. E quando eu tinha a sorte de encontrá-la fora desse ciclo, eu fingia indiferença por estar nervosa? Sei nem o que dizer dessa menina jovem boba que um dia fui. Desperdicei a oportunidade de ficar mais com ela? De conhecê-la melhor, na amizade?
Não demonstrava, mas tinha um crush forte nela. Olhava e desejava. Linda. Descolada. Simpática. Querida. Com seu carrinho rosa, à la Penélope. Um charme. Um arraso de mulher. Adjetivos não são o bastante. Ela impactava quem a conhecia e por onde passava. E impactava, sobretudo, quem tocava. Não sei se alguma outra mulher teve esse efeito na minha libido (homens certamente não)... ela? Sua lembrança, tanto tempo depois, ainda me encharca e me excita. Coisas que o tempo não apaga.
Lembro da mão dela ali embaixo… Eu de vestido curto e botas, pra variar. E ela colocando a mão ali, no meu clitóris, enquanto beijava minha boca, meu pescoço. Puta que pariu! Me arrepio inteira só de lembrar! A gente ficava um tempão ali na cabine daquele banheiro xexelento e saíamos como se nada tivesse acontecido. No caminho de volta pra casa, de carona com nosso casal de amigos, nos pegávamos de novo. Como era bom! Eu me sentia entregue na mão dela. Aquele momento em que nada mais importa.
Eu não era, como não sou. Não tenho definição - tenho tesão, tenho vontades. E ela… ela me deixa molhada só de lembrar como seus lábios percorriam os meus… meu pescoço… Devo me sentir culpada por ficar molhada ao lembrar do beijo e da pegada de uma mulher que eu nunca esqueci? Nunca esqueci, perdi contato. E aí como num piscar de olhos quase três décadas se passaram e eu recebi a notícia de que ela se foi? Fiquei pensando. Refletindo. Inutilmente repassando as coisas na minha cabeça. Devia ter demonstrado o quanto admirava aquela mulher? O quanto a achava linda, foda?
Provavelmente, nada teria mudado e a vida seguiria como seguiu. Maktub e nada teria mudado? Hoje estou aqui, falante, pensante. Será que a atração entre fêmeas tem algo de animalesco? O amor entre mulheres tem algo de feroz, instintivo, espontâneo? É sentimento ou sexual? Essa ideia de encontrar uma conexão profunda e única com outra mulher é uma ilusão? Era só sexo e eu idealizava por ser uma mulher?
Hoje estou aqui, sentindo aquela ausência do que nunca foi uma presença. Podia ter sido, mas não foi. Fim. Podia ter demonstrado mais, mas não o fiz. E se? Não foi. Fim.