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 ...e o que foi a vida? uma aventura obscena, de tão lúcida.





Parece algo distópico e talvez seja. Estereotipado, eu sei. Fui expulsa de um coletivo feminista após minha participação numa roda de conversa sobre sexo. Sim. É exatamente isso. Dizer que gosto de ser dominada (ou melhor, de me sentir dominada em determinadas ocasiões… risos). Dizer isso foi demais pra elas. Sim, tenho tesão em ser puxada pela cintura de quatro, de ser segurada pela nuca, de ser chamada de goxxxtosa enquanto o cara mete ritmadamente em mim, olhando pro meu rabo. Fico molhada. Encharcada.


Falei isso numa roda de conversa onde falávamos sobre sexo. O quanto é heterossexualidade compulsória, o quanto é instinto, gosto pessoal. O quanto o gosto pessoal é condicionado culturalmente e as escolhas idem. Blablabla. Problematizações em ambiente descontraído. Liberdade de expressão. Espaço de acolhimento no qual aprendi, sobretudo, que não posso falar que fico molhada com certas práticas e submissões. Não posso ter agência. O livre-arbítrio não existe? Bom… Fico molhada. E é isso. Mesmo em situações nas quais normalmente eu acharia um absurdo.


O quanto da minha umidade foi moldada culturalmente? Não sei, mas ela existe e não vou negá-la. Tesão manifestado no corpo é o corpo escolhendo também, ou não? Esse relato aconteceu no nosso penúltimo dia juntos, na casa dos meus pais, por exemplo. Eles estavam viajando, então pra variar chamei o boy. Ele, pra variar, apareceu cheio de amor pra dar, portando uma garrafa de vinho. O plano era pedirmos uma pizza e assistirmos a um filme. A sobremesa?


Fácil intuir que, depois da sessão de streaming, a gente iria pro quarto. Fomos. Rapidamente eu estava nua de bruços na cama, com ele de pau duro montado em cima de mim, fazendo menção de enfiar enquanto falava no meu ouvido. Tá me negando a bunda, minha puta? Cuspiu na minha cara, afastou minhas pernas e... enfiou. Senti dor. A seco? Claro que senti dor. Só que, ao mesmo tempo, fiquei molhada, excitada. Ele me dava um mata-leão de leve enquanto comia meu cu… soltava… apertava… soltava… e ficou repetindo isso até gozar.


Eu contei essa história na roda de conversa pra ilustrar como sexualidade, tesão, é um pouco mais complexo do que simplesmente dizer que alguma prática é violência per se. Há nuances. Se a pessoa envolvida gostar e se excitar com a prática, ainda que adestrada culturalmente pra gostar, significa que a pessoa está sendo violentada? Elas insistiram comigo que eu fui estuprada, e eu insisti que não. Resultado? Expulsa do coletivo. Risos. Promoção de diálogo é isso? Sou adepta do foda-se, então foda-se segui. Só não virei direita bolorenta porque não tenho vocação. Não me radicalizei porque não tenho vocação pra ruminância. Risos.


Não me deixaram terminar a história. Nojinho e ojeriza vieram antes. Aquela atitude condescendente que têm com coitados. Não, não fui estuprada - e dizer o contrário é desrespeitar a pessoa envolvida, no caso eu. Por que não podemos conversar sobre todas as possibilidades de prazer? O final dessa história que não me deixaram terminar de contar é sem especiaria nenhuma, insosso. No dia seguinte foi a última vez que o vi. Fiquei com medo de, na próxima vez, ele não controlar a própria força. Teve uma hora em que ele apertou meu pescoço e eu quase desmaiei, senti todo o ar se esvaindo. Achei melhor não dar chance pro azar e não sair mais com o boy. Vai que. Eu nunca confiei em homem, você já? Trouxa! Ao mesmo tempo, devo reconhecer que já fui trouxa. Ninguém de fato me conhece e os que mais sabem… não sabem da missa um terço. Risos. 


A gente deve ter discrição com a própria vida, não? Sempre tive. E nunca fui santa. Risos. Se eu pudesse voltar ao passado, o que eu diria sobre isso pra mim, pra minha eu do passado? Nada. Honestamente? Nada. A eu dos 18, 20 e poucos não escutava ninguém, a não ser a si mesma. Era arrogante, soberba, ignorante e inexperiente… como o são os jovens dessa idade. Pense em você com 21 anos?! Risos. Pessoinha equivocada cheia de certezas. Típico da idade. O idealismo e a inocência passam. A arrogância, nem sempre.

Mas… em mim eu confiaria. Se eu acreditasse que a eu do futuro que estava aconselhando a eu do passado realmente era eu, mas vinda do futuro… eu me ouviria. Porque eu saberia que eu seria leal a mim. Nisso, sempre fui. Então eu me diria os números vencedores de umas 3 megas da virada, em anos distintos. E me diria pra não me envolver amorosamente com certas pessoas, além de não ter outras por perto (cobras peçonhentas). O resto, deixa acontecer. 

Eu sou quem sou por ter sido quem fui. Eu não gostaria de ser outra pessoa. Porém, algumas coisas e pessoas são desnecessárias e dispensáveis. Risos. Me disseram que meus relatos eram repugnantes e não quiseram ouvir o que eu tinha a dizer. Risos. Hoje acho isso tudo ridículo, risível, tragicômico. Será que teriam me escutado, se eu fosse uma filósofa norte-americana? Nesse país você não pode pensar em português. É bom pensar em inglês, em alemão, as pessoas aceitam. Em português? Pensar é uma coisa horrível, as pessoas odeiam. Discordâncias então…Risos.

Me disseram que os relatos eram repugnantes e que a sugestão de ser possível sentir prazer na subjugação é negação da violência sofrida. É? Eram? Eu não acho. É claro que, em grande medida, somos condicionadas culturalmente. Nossos gostos são condicionados pela cultura na qual vivemos e crescemos. É claro que sim. Entretanto, não temos nenhuma agência? O corpo respondendo com excitação não diz nada? Va fan cullo! Com dois lls? Carinha pensante. Não, burra!, falo em voz alta comigo mesma. Vaffanculo! Dois ffs, tudo junto. ‘ffanculo! Risos. Que saudade da Itália que ainda não conheci. Risos. 

Aquela foi a última vez que o vi e não me deixaram contar o resto. Tudo repugnante demais. Até que semana passada o encontrei de novo. E? E nada… Estou ruiva e de óculos escuros… fingi não ver, enquanto ele pareceu não me reconhecer. Ou fingiu também. É prudente não deixar escapar os segredos. Uma vez solto, o passado pode assustar as pessoas. O meu assustaria? E o seu? Imagina amigas se contando histórias enquanto bebem vinho, curtem um som e falam do passado sem filtro. Clichezão. Na vitrola, Cazuza. Bowie. Ney. Na taça, um primitivo. Ou um merlot. Um chianti? Vai depender de onde estivermos nesse mundão e pode terminar sendo inclusive cachaça. Risos.

Fingi não ver, mas senti um arrepio na espinha ao passar do lado dele. Arrepio de cima a baixo… terminando daquele jeito. Cheers!


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