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I represent to you all the sins you never had the courage to commit.
Lembra que eu dançava semanalmente naquele restaurante que a gente gostava tanto? Lembra que rolavam rumores de que eu não era somente bailarina? Eu fui. Treinei muito. Fiz muitos cursos e workshops. Danço até hoje, embora não seja minha profissão principal. Eu dançava. A sério. Mas um dia fiz (aquilo) em troca de vinte mil. Sim, vinte mil. Era isso o que eu valia?
Semanalmente, eu dançava lá, lembra? Um dia, após um show, fui apresentada a alguém que alguns dias depois me fez uma proposta indecente. Talvez você lembre da Demi Moore e tenha certeza que estou mentindo. A proposta não era 1 milhão de dólares. Eram só vinte mil. Reais. Mais possível do que se pensa na realidade da capital. Pensando em retrospectiva, não sei o que se passou na minha cabecinha (de vento) dos vinte e tantos anos.
Cabe a cada um de nós saber o tamanho do buraco no qual estamos dispostos a cair? Down the Rabbit-Hole? Do outro lado, não havia nenhum Robert Redford. E a proposta não era 1 milhão. Quem me ofereceu o $$$ foi um adido. Contrato. Pra show particular. Cachê em dólares? Perguntei, ué. Por que deveria aceitar a proposta em reais? Cachê em dólares.
Pode ser. Passou a ser. Era. Vinte mil. Dólares. Fui? Por que não? Eu sabia que não se tratava de show, mas que devia levar certos figurinos da dança. Fetiche do contratante. Ele me viu no restaurante e depois me achou na rede social. Eu postava vídeos de dança, claro. E algumas fotos de ensaios fotográficos, aulas, shows. A gente precisa divulgar o próprio trabalho e a internet taí pra isso. É de graça. Não, não é de graça - rouba nossa alma. Risos.
Infelizmente, bailarina sempre recebe algumas propostas engraçadinhas e mensagens babacas, mas eu não esperava por aquilo. O dono do restaurante nos apresentou após o show. Depois ele me achou na rede, me enviou mensagem. Começamos a conversar. E, numa reviravolta muito louca… Quero um show particular seu. Pago por isso. Cinco mil? Dez? Quero te comer… Do outro lado da tela, fiquei paralisada pela incredulidade após ler aquelas mensagens..
Fiquei paralisada. Levei um choque. Na minha vidinha privada absolutamente comum, estava juntando dinheiro pro casamento e o cachê médio de uma apresentação de dança girava em torno de 250 reais. Ele era funcionário público do baixo clero. De repente, um cara desconhecido queria me pagar 10 mil pra me comer? Quantas apresentações eu teria que fazer para juntar 10 mil? Quarenta? Fiquei indignada e tentada ao mesmo tempo. Vai entender.
No dia seguinte, decidi responder de uma forma que aquele cara nunca mais fizesse aquele tipo de proposta. Dez é pouco. Quero quinze. Com camisinha. E pra acontecer precisa ser num flat, com quarto e sala, pro meu noivo ficar na sala esperando e garantindo minha segurança. Ele não se importa de ouvir tudo. Aspas agora. Aspas para o que vem a seguir. Quinze inclui o cuzinho? Sim, essa foi a pergunta do cidadão. Engoli a saliva a seco e, genuinamente, pensei: inclui? Não, óbvio que não inclui! Vinte. Mil. Dólares. A inclusão custa 20.
Negociado o cachê de vinte mil pelo showzinho particular, é claro que conversei com ele sobre o assunto. Amor, o que você acha? Dá ué. Fico na sala.
Não confirmei nada. Dormi sobre o assunto. No dia seguinte, terminei de negociar e acordar os detalhes do show particular. Até que chegou a data e… Dei. Sem grandes dramas. Ele estar ali, do outro lado da parede, me deu segurança, razão, motivo. Saí do quarto, olhei pra ele, demos as mãos e saímos do flat. E, ao chegarmos em casa, ele me beijou e comeu meu cu com uma vontade nunca vista antes. Naquele dia descobri o cuckholdismo dele. Mais um fetiche pra coleção. Achei surpreendente.
Foi a única vez que fiz por dinheiro. Todavia, passamos a frequentar casas de swing e festas sex positive. Nos divertíamos no meio liberal. Corta pra realidade: menos de 1 ano depois, terminamos. Estávamos montando apartamento e terminamos. Ele tinha tesão e queria me ver transando com outros, outras e outres. Eu me sentia um lixo. Nunca mais parei de receber propostas e os rumores de que eu era puta nunca mais desapareceram, embora aquela tenha sido a única vez.
Engraçado como uma decisão equivocada pode marcar a gente pra sempre, não é? Uma vez…