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Had I not created my whole world. I would certainly have died in other people’s.
Na primeira vez que saímos, teve um dilúvio na asa norte. Fomos a um bar, jogamos sinuca. À la Eduardo e Mônica, eu tomava blood mary enquanto ele pedia suco de laranja e quibe grelhado. Sim, grelhado. Tem menos gordura que o frito. E sim, eu também quase revirei o olho, mas ele era tão bonito, interessante… Fiquei. Quando entramos no carro pra ir embora, a enxurrada. Ficamos presos num estacionamento da asa norte, dentro do carro. A pegação de dois semi desconhecidos cheios de tesão é tão gostosa… Só não dei pra ele ali mesmo, em meio ao dilúvio, porque me encontrava invadida pelo exército vermelho.
Quase dezessete anos depois daquele boquete na chuva torrencial, nos enviávamos mensagens sexuais no meio do dia. Eu gostava de incitá-lo, de agradá-lo. Naquele dia repetimos esse hábito, mas o desfecho foi diferente. A gente se enviava mensagens na sexta, como um aquecimento pro nosso encontro à noite, pós expediente. O tipo de mensagem não era sempre amorosa, melosa. Fora de contexto, talvez soasse até ameaçador.
O tipo de mensagem que a gente se enviava no meio da tarde numa sexta-feira? Pessoalmente, eu gostava de incitá-lo. Gostava de vê-lo ansioso, com aquele pau duro latejante quando nos encontrávamos. Gostava de provocar o desejo pelo fim do dia de trabalho, pela chegada do final de semana. Éramos jovens. Gostávamos de trepar. E eu sofria de um pouco de amor de pica sim. Como não? Um homem que me estimulava a me tocar, a conhecer meu corpo. Um homem que me degustava, me lambia, me fazia escorrer em gozo. É claro que me apaixonei, me entreguei. Era lindo. Sempre educado, tratava bem a todos. Aqueles olhos castanhos... ah, a tempestade que traziam!
Morávamos juntos e nossos horários de trabalho eram diferentes, então nos curtíamos mais a noite e, especialmente, aos finais de semana. Era quando sobrava tempo e podíamos dormir juntos, acordar tarde sem preocupação e ficar naquela preguicinha matinal gostosa. Às sextas, nos enviávamos mensagens sexuais no meio do dia... elas funcionavam como um aquecimento pro nosso encontro pós expediente. Eu gostava de incitá-lo, de agradá-lo. Naquela sexta, repetimos o hábito, mas o desfecho foi diferente.
Sexo começa fora da cama. O desejo não está na genitália. Quem não adora palavras gostosas ditas ao longo do dia com mensagens, bilhetinhos?... Ele passava o dia fora, trabalhando. Eu também. É bom receber uma mensagem que afaga o ego ou dá tesão. Fica melhor quando o encontro acontece. Chegar querendo trepar e a outra pessoa já estar molhada, tem coisa melhor? Se não for pra aumentar a umidade…
Quando vejo seres humanos do sexo masculino reclamando que as suas respectivas não querem nada com eles… eu rio. Os caras ficam o dia todo fora de casa… durante o dia não ligam pra saber como estamos ou sequer se preocupam em enviar alguma mensagem que afague nosso ego… e quando chegam em casa querem jantar e trepar? Não seria melhor que eles pedissem ifood e arrumassem uma boneca inflável ou fizessem um buraco na parede?
Pra levar uma mulher pra cama você não precisa ser romântico. Bem… romântico não, mas atencioso sim. É claro que mulheres amam pequenas delicadezas, velas aromáticas, massagens com óleos e flores, mas toda mulher adora uma palavra firme, um sussurro, uma baixaria dita baixinho no ouvido, pegada forte e segurança. Porém, um aviso: se tudo isso não for feito com consentimento e carinho… tudo isso será feito em vão porque mulheres gostam de se sentir degustadas e não comidas.
Desculpem pela(s) digressão(ões). Sabe a sensação de finalmente sentir que pode ser você mesma com alguém, e não só na cama? De admirar a pessoa por um monte de coisas? É simplesmente arrebatador e eu sentia isso com ele desde aquele suco de laranja. Como ironia da vida, às vezes a minha síndrome da impostora me dizia que ele não parecia alguém ao meu alcance. Risos.
Quase duas décadas de Vem cá. Dá um tapa na minha bunda. Faz o que quiser. Com ele, não bastava ajoelhar ou ficar de quatro. Ele me lambia. Enfiava o dedo. Manuseava meu clitóris. E só enfiava aquele pau gostoso em mim quando eu pedia em voz alta. Eu ali, molhada, gemendo. Pede o que você quer, sua cachorra! Molhadinha gostosa. Me come. Faz o que quiser. Ele se aproximava, segurava meu quadril, encostava a cabecinha daquele pau duro na entrada da minha buceta, dava um tapa com força. É isso que você quer? Puxava meus cabelos e eu gemia. Fala! Quero! Batia de novo. Fala o que você quer! Me come. Faz o que quiser!
Não precisa pedir duas vezes, puta! Ao terminar a frase, ele já estava dentro de mim. Ia de uma vez. Puta! Esse era um roteiro que se repetia com certa frequência, com pequenas variações, na nossa vida. Naquela sexta-feira, foi tudo um pouco mais apimentado. Todo mundo conhece aquele ditado de que pimenta no dos outros… É. Pois é. Mas não é nada do que você está pensando. Ele deixou meu rabo em chamas, mas não foi como eu imaginava. Hoje conto isso rindo, mas putaquepariu! É a pior sensação ever!
Começou assim. Cheguei em casa e estava uma baguncinha na mesa da sala… ouvi alguém na cozinha. Meu pensamento talvez não tenha sido muito positivo. O que será que esse homem está fazendo agora?...
Meu amor! O que é, minha safada? Risos. Comecei a rir, e a minha vontade inicial de perguntar que porra é essa aqui na mesa da sala de forma indignada foi embora. Ele, como sempre, estava bem humorado. O que você está fazendo? Peguei uma receita de nhoque picante. Fui ao mercado, comprei os ingredientes, estou fazendo o jantar. Também comprei vinho, está na geladeira.
Sorri. Dei um beijo no desgraçadinho e fui tomar banho. Deixei o homem preparando o jantar. Uma chuveirada cairia bem. Era verão, estava um calor dos infernos e eu tinha ficado trabalhando até mais tarde e plena sexta-feira. Uma chuveirada e uma gota de perfume cairiam bem. Coloquei um vestidinho leve após o banho e é isso. Cabelo solto, molhado. Nada mais era necessário se a intenção era comer e comer. Degustar(nos).
Ao chegar na sala, a mesa era outra. Bonita. Organizada. Bemposta. Com direito a flores e luz de velas. E o homem vindo na minha direção com aquele sorriso e uma taça de vinho… Desgraçado lindo desnecessariamente delicioso, ofensivamente fofo. Toma, eu sei que você gosta. Tinto?, olhei pra ele e perguntei, como se não fosse possível ver que era tinto. Chianti, o seu preferido. Achei que combinava com o nhoque picante acompanhado de filé que inventei. Risos. Fiquei sem ter o que falar. Só aceitei a taça e brindamos. A nós!
Nos beijamos. A nós! O que veio a seguir? A gente começou a se pegar loucamente antes de sentarmos pra jantar. Tesão acumulado, sabe como é? Fomos pro quarto. Pra nossa cama king size. Ele beijava minhas costas enquanto colocava a mão ali e dizia no meu ouvido tô com saudades desse seu cuzinho gostoso… Eu estava totalmente molhada! Totalmente! Saudades daquele…
De repente, gritei. Pára! Pára! Ele me olhou assustado. Tá tudo bem? Levantei e fui correndo pro banheiro. Água fria ali… Um pequeno alívio. Como explicar o fogo no rabo? Risos. Sim, ele tava preparando nhoque picante, cortando as pimentas, fazendo o molho… E, aparentemente, quando a pessoa manuseia corta etc pimentas, os dedos ficam… com pimenta? E esses dedos foram ali pro c…
Como explicar o fogo no rabo?
Me ajuda. Explica aí sem começar a rir da pimenta no dos outros.