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Little girl, I’m thinking that one of the very gladdest jobs you ever did has been done to-day.
Não sei ao certo quantos anos eu tinha. Algo entre 6 e 7, talvez. Já ia pra escolinha. Era pequena o bastante pra entrar embaixo de uma cama com certa facilidade e depois ficar presa lá, sem conseguir sair ou respirar. Minha primeira crise de pânico aconteceu um pouco mais cedo do que deveria e eu não lembrava dela até recentemente. Eu era um pouco maior do que minha sobrinha. Ela tem 3 anos e receio que passe por algo semelhante. Morro de medo! Nenhum ser tão pequeno merece ter taquicardia e parada respiratória ao mesmo tempo...
Não sei o que me curou. Também não sei se posso afirmar estar curada. Controlar a respiração ajuda e quem me ensinou isso foi a ioga. Sabe aquela coisa sem contraindicação? É ela! Não é um exercício físico, mas uma filosofia de vida que trabalha corpo e mente ao mesmo tempo. Trabalha o emocional e nos ajuda a agir em direção ao equilíbrio. Ioga traz relaxamento, concentração, tranqüilidade mental, fortalecimento físico e desenvolvimento da flexibilidade. Super recomendo. E isso não é um publipost.
Me digo ateia, mas estou tão próxima do budismo que não sei estimar distâncias. Foi no templo que me reaproximei de mim. Não tinha missa nem culto, mas abundavam mantras e silêncios cúmplices. Embora tenha sido criada católica apostólica romana, o fato de ter nascido judia e estudado história me manteve afastada de religiões. Miscigenada como toda brasileira, só não nasci negra. De resto, minha família era pobre. Remediada e rural. Um ou outro soube aproveitar as oportunidades da cidade grande e cá estamos. Confortáveis pero no mucho.
Longe de ser rica! Gente que conta salário pra pagar todas as contas e faz poupança pra poder mandar os filhos pra Disney é rica? Sei lá, no meu tempo a gente era no máximo classe média. Eu tinha 15 anos quando vi o Castelo da Cinderela pela única vez e queria ser a Sininho descendo lá de cima! Já não acreditava em príncipes e princesas, só queria viajar e comprar coisas bonitinhas mesmo. Aos 15, já desconfiava até do padre da nossa paróquia!
Você acredita? Meu apelido na infância era bicho do mato. Não gostava de gente chegando perto de mim. Menininha desconfiada misantropa. Era uma criança com aversão a gente. E o engraçado disso tudo é que nunca se perguntaram o porquê. Nem eu mesma sabia o porquê. Aquela primeira vez na infância inconscientemente me tornou uma pessoinha desconfiada e reativa. Medrosa também – e isso facilitou meu envolvimento com um narcisista quando eu já era adulta, afinal com ele me sentia protegida.
Voltei a ter crises de pânico durante o relacionamento com ele. Elas pioraram um pouco até que eu passasse a frequentar o templo. Era perto de casa. Tinha práticas budistas como meditação e ioga. Ir ao templo eu podia. E ir ao templo de certa forma me salvou. Me reconectei comigo mesma e, finalmente, tive coragem de procurar terapia. Admitir pra si mesma que foi vítima de abuso e que precisa de ajuda profissional não é fácil, mas eu estava olhando há tempo demais na direção do precipício: era isso ou saltar.
Sempre que posso, ajudo minha irmã e fico com ela. Dizem que sou neurótica, mas não consigo confiar em nenhum homem sozinho com minhas sobrinhas... nem mesmo o pai delas. Você confia? Reformulo: você confia deixar sua filha sob os cuidados de algum homem?
Antes que o boato surja: não fui abusada pelo meu pai, embora minha primeira vez tenha acontecido na infância. É, infelizmente sou mais uma que faz parte das estatísticas. Muito prazer. Fosse um depoimento, eu começaria dizendo que eu estava debaixo da cama. 1, 2, 3, 4, 5, 6... Não fui a única que teve a ideia de se esconder ali. Xiii!!!! Ele olhava fixamente pra mim, me encarando e fazendo aquele gesto de “silêncio!” enquanto mexia de uma maneira estranha lá embaixo, nas próprias partes.
Olhei e vi uma coisa dura, diferente. Paralisei pela primeira vez. Não sabia o que era aquilo, nem o que significava. Nunca havia visto aquilo. O do meu pai era sempre uma coisa mole engraçada e feia, balançando. Do meu irmão também. 30, 31, 32, 33, 34... Xiii!!! Congelei. Não conseguia nem gritar. Brincávamos de pique-esconde. Silêncio. A mão dele entrou no meu short. Senti o dedo mexendo nas minhas partes. Congelei e tive taquicardia. Não conseguia respirar.
Não sabia o que aquilo tudo significava, nem o que representava. Mas lembro de me sentir tãooo pequena ali, embaixo daquela cama, sem entender o que estava acontecendo...
Talvez aquela tenha sido a minha primeira crise de pânico. Infantil. Causada por um trauma que eu sequer sabia que era um trauma. Eu puxava... e o ar não vinha. A sensação era de estar sufocando! ...48, 49, CINQUENTA! Tô indo! De repente, aquela mão subiu um pouco e foi apertar o seio que eu não tinha. Depois voltou lá para baixo e ficou mexendo naquela rachinha infantil, como se quisesse entrar... Xiii!!! Sinal de silêncio. Dedo ali, entre os lábios.
Subitamente, alguém acendeu a luz. Era minha prima, que adentrou o quarto. Tem alguém aqui? Em vez de esperar que ela me encontrasse e permanecer ali congelada, ofegante, em pânico, sem entender porque ele estava quase enfiando o dedo ali, no meu buraquinho... saí debaixo da cama correndo e perdi o pique-esconde.
Quando ela viu que o pai estava escondido ali embaixo comigo, me olhou como se soubesse. Hoje, penso no que devia acontecer com ela e com a irmã e que, provavelmente, este é o motivo pelo qual não falam com o pai. Pra mim, foi só o Dia das Crianças mais marcante da infância. E pra elas? Será que esse tipo de coisa (ou pior) acontecia frequentemente com elas?
Nunca pensamos que pode acontecer conosco ou com alguém que amamos. Meus pais nunca desconfiaram. Depois daquele dia, eu fazia birra toda vez que mencionavam voltarmos lá. Fazia escândalo. Nunca mais retornei à casa de minhas primas. E virei o bichinho do mato, apelido de infância. Bicho do mato desde criancinha. Se chegar muito perto e ensaiar encostar em mim, eu olho feio e rosno.
Até pouco tempo atrás, eu não lembrava dessa primeira vez. Estava tratando a última crise quando passei a ter alguns flashes e, honestamente, me questiono se não era melhor continuar não lembrando. Se a memória daquele dia estava guardada silenciosa em algum compartimento do meu cérebro, não era melhor tê-la deixado lá? Ela estava mesmo silenciosa, ou se manifestava de formas que eu não percebia?