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F*ck me badly once, shame on you. F*ck me badly twice, shame on me.
Lembro-me exatamente da sensação de tê-lo dentro de mim naquela avenida monumental. No meio da noite, ele parou o carro embaixo de um semáforo.… abaixou as calças, colocou o pinto (duro) pra fora, (entendi o que aquilo significava e tirei a calcinha; estava de vestido), colocou camisinha... enfiou. Algumas estocadas... gozou. Jogou a camisinha pela janela, fechou as calças... olhou pra mim, ligou o carro e me deixou em casa.
Não sei como. Só sei que foi assim.
O meu prazer? Acho que só não foi negativo porque o perigo de acontecer alguma coisa talvez me excitasse.
Esse dia cheguei em casa, tomei uma chuveirada, me olhei no espelho e fui pro quarto, onde uma garrafa de vinho barato e um beck me esperavam. Me tranquei ali, liguei o notebook e fui escrever.
Sim, foda-se que era a casa da minha mãe. Dentro do meu quarto me deixem em paz com minha privacidade. Controle, intimidação pelo medo e desrespeito à intimidade funcionaram com qual jovem? Nunca, nenhum. Em minha defesa, eu ficava ali quieta a madrugada inteira, de fone de ouvido, sem incomodar ninguém. Escrevia sobre essas experiências de merda e publicava num blog duvidoso e anônimo.
De vez em quando, apareciam umas pessoas me xingando de promíscua que mereceu tudo isso, seja lá o que tudo isso quer dizer. Eu ignorava. Escrevi sobre esse dia monumental. Dois parágrafos relatando o que aconteceu… a história não ia pra frente. Era sem graça e absurda assim. Ficamos. O local? Uma festa naquela mansão no parque away. Ele morava na quadra vizinha, me deu carona de volta pra casa. Parou no semáforo quase do lado do Congresso. Me comeu. Jogou a camisinha pela janela. Me deixou em casa.
Foi isso. Essa foda sem graça. Sem especiarias. Eu fiquei um tempão olhando pra tela do computador. Ouvia Janis Joplin. Dava umas tragadas. Olhava pra garrafa esvaziando e pensava: será que é a última?... Bloqueio criativo. Bloqueio de escrita. Acho que aquela foi a primeira vez na qual me questionei se estava servindo só de…
Você sabe, depósito de porra. Eu nunca mais saí com esse vizinho de quadra, pois foi assim que me senti. Um depósito de porra. Não tive coragem de dizer nada pra ele, só sumi. Deixei de atender. Deixei de existir. Sumi. Mas, naquela madrugada, fiquei pensando sobre como sexo era uma merda. Se eu só gozo com siririca, por que continuo transando com esses bostas?
Eu não sei. Você sabe?
Cresci chamando atenção. Não tinha dificuldades pra atrair macho e, como toda jovenzinha idiota, não percebia que era só usada. Uma buceta rosa na qual eles metiam e tchau. Naquela madrugada acho que foi a primeira vez na qual percebi e fiquei com nojo. Equivocadamente, o primeiro nojo foi de mim. Como eu pude… Até essa madrugada, eu achava que os caras gostavam de mim. Não gostavam. Era só a buceta rosa na qual eles queriam meter e tchau. Por isso, nunca foi difícil pra mim arrumar macho… ao menos, não pra dar umazinha. Gosto amargo. Então eu sou só um burac… É, sou.
Perceber virou uma chave. Quando o nojo passou, a Carrie que há em mim se transformou em Samantha. De encolhida em casa feito caracol, voltei a sair. Às vezes, só flertava. Outras, provocava. Passei a considerar meu prazer e minha vontade primeiro. E a desconsiderar o que os outros acham. Foda-se o que dizem. Eu sou minha prioridade. E isso incomoda! Devoradora de homens, por fazer o que homens fazem: relações casuais, sem obrigações ou pretensões.
Descobri tanta coisa… Meu descobrimento começou aí, por volta dos 20 anos. A experimentação, também. Acho limitante ser hetero. I’m a try-sexual. I’ll try anything once. Muitas coisas experimentei mais de uma vez. Pratiquei. Gostei. Sexo não era uma merda. Aquela mal comida passiva estava errada. E eu até acredito em amor, mas essa ideia de que sexo com amor é espiritual é antiquada e carrega culpa cristã inconsciente. Transar com sentimento é bom? Pra caralho!
Por mais que transar amando seja uma experiência na qual parece que você encontra o sentido da vida e as respostas pra todas as dúvidas da sua existência… Sem amor também pode ser bom pra caralho! Isso é a culpa cristã inconsciente internalizada fazendo as pessoas acreditarem que sexo pra ser bom de verdade precisa de amor. Não precisa.
Quando você descobre o verdadeiro significado de transar gostoso… Eu nunca amei a segunda pessoa com quem eu mais gozei. Nunca tivemos um relacionamento. Saíamos de vez em quando pra nos curtir. Eu amava aquele pau lindo, rosa, mas a primeira vez que gozei numa foda com ele foi nas mãos dele. Inclusive fiquei molhada agora só de lembrar enquanto escrevo. Gozei nas mãos dele, depois o chupei até ele gozar. Engoli.
Sexo é sexo. Sexo pode e deve ser bom só pelo sexo. Façam sexo. Tenham prazer pelo prazer. Libertem-se! Gozar é tão bom! Quando eu entendi isso, eu entendi tudo. Essa sensação de petit mort é outra coisa, não amor - e não necessariamente vem atrelada a amar. É física. Infelizmente, não acontece sempre… Mas quando acontece…como é bom!
Até aquela madrugada, eu nunca tinha gozado. Depois… depois eu passei a gostar de sexo. Só o que eu quiser, como eu quiser, quando eu quiser. O que me define? Nada. Uma definição exclui a possibilidade de mudança.