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Man is least himself when he talks in his own person.
Give him a mask, and he will tell you the truth.
Nunca contei isso pra ninguém, mas fiz um aborto. E não me arrependo. Senti alívio, ao saber que estava livre daquele grãozinho de 6 mm que, se fosse jogado numa panela de arroz, sumiria. Não era um bebê. Não era nem um feto. Enfim, não importa. Nunca contei pra ninguém. Não me arrependo.
Era um daqueles dias nos quais eu sairia e beberia de graça... Mas estava namorando, então não podia fazer isso. Pensei ir ao mercado... comprar um álcool, um açúcar, um salgadinho. Gorda? Nunca! De forma alguma. Em vez de ir comprar porcarias, resolvi sair. A intenção era tomar um drink e voltar pra casa. Meu namorado estava viajando, então liguei pra um amigo que costumava transar comigo num passado distante enquanto solteiros. Agora ambos tínhamos nossos respectivos parceiros.
Não cheguei a tomar dois drinks... No segundo, vamos lá em casa ouvir um som e continuar o papo, fumar um. Bora! Acordei nua, escorrendo gozo entre as pernas. De nada lembro e não sei se fui eu quem bebeu demais ou se ele colocou algo na minha bebida. Esse é o resumo de como engravidei. Naquela época, eu usava camisinha até com o lindo, pois não podia tomar pílula e tinha medo de colocar o DIU. Sei lá. Levantei, tomei uma chuveirada e fui direto trabalhar.
Passei o dia com vontade de chorar, gritar e vomitar. Aquele foi possivelmente um dos dias de trabalho mais improdutivos que já tive. Entre dar o primeiro gole no segundo drink e acordar nua escorrendo gozo entre as pernas, eu não lembrava de nada. Tudo era um grande borrão e isso me angustiava. Saí do trabalho e passei na farmácia. Estava tão atordoada mais cedo que só ao final do expediente lembrei da existência da pílula do dia seguinte.
Apenas lembrei de alguns flashes daquela noite dias depois. Transamos sem camisinha. Ele gozou onde quis. A primeira foda da noite começou no sofá, sem camisinha. Acordei no meio da noite sendo penetrada, de ladinho, sem camisinha. Sabia que tudo além dos flashes, tudo que eu não lembrava... provavelmente tudo tinha sido sem camisinha. Buceta. Boca. Cu. Não lembro nem quantas vezes foram. Acordei nua, escorrendo gozo não só entre as pernas. E antes que eu conseguisse entender o que estava acontecendo, fui penetrada mais uma vez. Levantei, tomei uma chuveirada e fui trabalhar. Um mês e meio depois, o positivo.
Parabéns, mamãe! Esse aqui é o saco gestacional… blablabla eu não ouvia mais nada. Uma transvaginal de rotina e o médico me deu parabéns? Sim, me parabenizou ao fazer a ecografia, mas eu ouvi meus pêsames. Chorei – de impotência! Eu queria enfiar as mãos na minha barriga naquela hora e arrancar aquilo dali. As batidas do coraçãozinho me deram repulsa. Engasguei. Desesperei.
Saí enviando mensagens a todas as mulheres que eu sabia que já haviam abortado. Clínicas fechadas! Puta que pariu! Isso não pode continuar crescendo aí dentro. Minha sensação de querer enfiar as mãos e arrancar aquilo do meu ventre se aguçava a cada dia, a cada hora. Me mato!, era o que eu dizia a mim mesma. Marquei psiquiatra, relatei todos os meus sintomas de depressão profunda, insônia, etc, ansiedade... contei do pânico passado... inventei o que pude... omiti a gravidez. Receitas em mãos – qualquer coisa, me mato, grávida deve morrer mais rápido.
Cheguei a pedir cytotec num email que achei na internet. Era golpe. Perdi mais de 700 reais assim. Eu nunca senti um desespero tão grande! Por fora, eu tentava aparentar normalidade. Como ia contar pro meu namorado que eu estava grávida de outro? Por dentro, eu estava em pânico, desabando.
Até que uma das moças do aborto do verão passado numa clínica agora fechada, me deu a brilhante ideia: amiga, você devia falar com ele. Diga que é isso e que não quer. Peça ajuda pra achar clínica ou cytotec. Ele sabe que gozou em você e que é o pai. Os caras tem pavor de serem pais. Ele vai te ajudar a tirar o mais rápido possível. Falei com ele. Dois dias depois, me contactou. Clínica tá difícil... parece que andaram fechando todas... mas arranjei os comprimidos. Agradeci. Tomei.
Fiz o procedimento inteiro como me explicara um conhecido, médico. Tive a cólica mais forte da minha vida! Senti o momento exato da expulsão daquele saco gestacional barra embrião. No dia seguinte fui ao hospital alegando uma cólica e um sangramento muito intensos, além do normal. Na ecografia, o médico me deu pêsames. E eu senti congratulações. Felicidade. Alívio. Estava livre daquele aprisionamento em meu próprio corpo e não sentia arrependimento algum.
Nunca falei sobre isso. Sempre me senti muito julgada, sabe? Como se me olhassem e soubessem o que eu fiz. Como se quisessem que eu me sentisse culpada pelo alívio. Adianta explicar pra quem, além de achar um absurdo e ser contra, faltou às aulas de embriologia? Bebê não é feto, não é embrião. Coisas diferentes. Fases diferentes do desenvolvimento. Um amontoado de células de 5 mm disformes não é um bebezinho. Talvez não venha nem a ser um feto. Já parou pra pensar que a natureza provoca aborto? A perda gestacional, também conhecida como aborto espontâneo, acomete entre 10% a 20% das gestações. A maioria dessas perdas ocorre nas primeiras 12 semanas de gestação.
Minha posição sempre foi essa, ué?! Tão somente eu omitia que já havia passado por isso. Fiz o certo e sou super a favor que se faça, caso a mulher queira. A única pessoa que deveria opinar sobre aborto é a grávida. É ela, e somente ela, que vai enfrentar todas as consequências, físicas e psicológicas, boas e ruins, de levar a gestação adiante (ou não). É isso? Sim, é.
Nunca tinha conseguido falar isso tudo, dessa forma, sabia?! É mais fácil fingir demência quando o assunto surge. Ou falar que apoia a escolha da mulher de forma genérica. Quanto à violência… Aconteceu? Nem eu sei o que aconteceu, só sei o resultado. Então não, não vou denunciá-lo. Eu não sei o que aconteceu naquela noite. Já se passaram mais de 15 anos. Pra quê? Gastar dinheiro com advogado à toa e ainda ter que, provavelmente, ser olhada torto e desconvidada dos lugares? Hostilizada. Julgada. A vagabunda que traiu o namorado, deu pro amigo e se arrependeu. E é tão burra que ainda teve que pagar as custas processuais.
É foda! Nunca pude falar sobre isso lá em casa. Vou pro inferno. Jamais seria acolhida. Como eu fiz? Fui pra um hotel no dia de tomar o remédio… imagina aquela cólica e aquele sangramento lá em casa, com minha mãe perturbando? Pra ela é pecado. Imagina se ela descobrisse. Coitada. Melhor fazer a sonsa. Nunca aconteceu. A velha não precisa, a uma altura dessas, ter este tipo de decepção. Oito décadas de vida sem isso, deixa chegar a nonagésima em paz.