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 Poor is the man whose pleasures depend on the permission of another.






Durante alguns anos, fui protagonista da janela indiscreta da 7 sul. Era uma jovem sendo jovem e fazendo coisas de jovem. Graças a deus, não existem provas. Risos. Por sorte, aconteceu na pré-história, antes da disseminação das câmeras digitais, internet, essas modernidades. Eu morava num prédio cujas janelas davam de frente pras janelas do prédio do lado. O quarto do outro prédio olhava pra dentro do meu quarto, a nossa sala de tv olhava pra dentro da sala de tv do outro. Paraíso dos voyeurs. Risos. Por motivos de estupidez juvenil, eu deixava a janela aberta, deitava na minha cama, abria as pernas e siriricava. Pois é. 

Eu me masturbava com a possibilidade de alguém estar se masturbando olhando eu me masturbar. O resumo do roteiro é esse. Abria a janela, colocava uma máscara, tirava a roupa, deitava na cama, abria as pernas e me tocava até me satisfazer. Às vezes, levava 5 minutos. Às vezes, levava meia hora. Às vezes, usava só os dedos. Às vezes, usava o trovão. Eu não me importava se alguém estivesse assistindo, filmando... Queria que batessem punheta mesmo. Isso me excitava. Me molhava, me escorria. Depravada desde jovenzinha, diriam as más línguas.

Eu era virgem. Morria de medo de pegar alguma doença. Achava os homens todos sujos. Me davam nojo. O paradoxo da degenerada juvenil. Se masturbar com as pernas abertas virada pra uma janela aberta. Possivelmente inspirar a punheta alheia. Ter tesão nisso. E sentir um asco absurdo dos portadores de pinto. Eu era virgem, tinha ranço e me faltava discernimento. Graças à deusa estávamos na pré-história e não há registros dessa sandice juvenil. Me masturbar com a possibilidade de alguém estar se masturbando olhando eu me masturbar? Quantos vizinhos será que participaram ativamente dessa fantasia?

Pra piorar, de vez em quando, eu ficava dançando só de calcinha à meia luz, ouvindo The Doors. Ah, Morrison e aquela voz sexy! Ainda gosto, e ouço. Colocava um fone de ouvido e ficava ali dançando de madrugada, após queimar um. Dançando de calcinha com os cabelos longos soltos, caídos sobre os seios. Onde eu havia aprendido esse comportamento de filme pornô? Não sei a resposta. Cresci adolescente sem internet. Assistia Cine Privè e Madrugada Sexy. Meus pais nunca conversaram comigo sobre esse assunto, preferiam fingir que não existia. Eu também preferia. O assunto não existia, enquanto eu me exibia como uma putinha barata à noite no meu quarto (é isso que um vizinho me disse alguns anos depois, quando nos encontramos na universidade).

Ainda bem que não há registro daqueles tempos nos quais eu produzia live pornografia gratuita sem perceber. Ou percebia, apenas não me importava? O córtex pré-frontal ainda não estava em pleno funcionamento. Adolescendo assistindo e lendo Lolita, dançando com Madonna. Cresci sem me importar. Not giving a fuck, as they would say. Aprendendo comportamentos que eu não sabia de onde. Agora sei? Às vezes, acho que tô velha pra pensar nessas coisas que deviam ficar lá, esquecidas, no passado. Qual o benefício de retomar essas lembranças? 

Alguns anos mais tarde, protagonizei uma janela mais indiscreta num daqueles condomínios de kit da asa norte que são aquilo, né. Uma hora a gente está ouvindo a reza da mesquita. Na outra estamos vendo e ouvindo o vizinho pelado fazendo faxina. Juro! O vizinho do janelão de frente passando aspirador de pó peladão ao som de Rolling Stones foi a coisa mais surrealmente fofa daquela semana. Quantos devíamos estar vendo e ouvindo aquilo às oito da noite? Na minha cabeça, a trilha sonora da cena era I want to break free. Ele não parecia se importar com os espectadores. Continuei fumando um marlboro e tomando um vinho branco gelado como se nada tivesse acontecendo. 

Retribuí na sexta seguinte, dando meu cu voltado pra janela. Minha bunda virada pra janela, a bunda dele como visão da vizinhança. O pau dele era enorme, então eu gemia mais do que de costume. Às vezes, gritava. A depender da estocada, urrava. Dor e prazer. Em nenhum momento eu pedia que parasse. Eu gostava. E, naquele dia, o PA me colocou nua de quatro virada pra janela e meteu no meu cuzinho até gozar. Quantos deviam estar vendo e ouvindo aquilo às dez da noite? Bolas balançando indo e vindo? Será que há algum registro? 



Inconsequente. 





No epitáfio, she still doesn’t give a fuck.